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Web3 e tokenização equalizam e potencializam os efeitos de rede

10 mins
Atualizado por Chris Goldenbaum

EM RESUMO

  • Onde está o killer app da Internet? Efeitos de rede: seu viés positivo e negativo. 
  • Quais são os obstáculos aos efeitos de rede na Web2? Que ferramenta da Web3 é capaz de solucionar tais desafios?
  • Tokenização em redes descentralizadas. Como os ecossistemas tokenizados alinham incentivos? Como assegurar pressão competitiva com alternativas realistas? Por que os efeitos de rede são ainda mais poderosos na Web3?
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Web3 nos traz os tokens como ferramenta para construção de novos modelos de organizações – como as DAOs – , mas também altera toda a abordagem para a inicialização de novas redes e a equalização de seus efeitos. 

É disto que trataremos no artigo de hoje: como tokens podem ser usados para solucionar os problemas dos efeitos de rede – bootstrapping e imperativo da extração – , atraindo early adopters (usuários iniciais), devidamente recompensados por suas contribuições quando os efeitos da rede ainda não estão óbvios ou ainda não começaram. 

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Onde está o killer app da Internet?

Definitivamente, as redes são o “aplicativo matador” da Internet. Se olharmos com mais atenção para os aplicativos que utilizamos em nosso dia a dia, perceberemos que todos eles são redes!

A Web, o e-mail que utilizamos para trabalhar, os aplicativos sociais como Facebook e Instagram, onde interagimos com amigos e nossas família, os marketplaces onde vendemos e compramos livros, eletrônicos e até pneus –como Amazon e Mercado Livre – , todos eles são redes.

E a medida que mais participantes se juntam às redes, elas se tornam mais valiosas – o que é conhecido como “efeito de rede”.

Efeitos de rede: panorama geral

⎯ Significado de “efeitos de rede”

Na Web2, onde a tomada de decisões nos negócios sobre produtos e serviços é tomada de forma centralizada, a maior parte do “valor” é acumulado por plataformas orquestradoras de redes – como Apple, Amazon, Facebook e Instagram – e não por usuários e criadores de valor.

Dito de outro modo, no atual estágio da Web, a quase totalidade do valor é capturado por grandes plataformas de tecnologia, que se utilizam dos dados comportamentais de seus usuários para obter lucro, e dos “efeitos de rede” para potencializá-los. 

Neste contexto, a palavra “efeito rede” refere-se a qualquer situação na qual o valor de um produto, serviço ou plataforma depende do número de compradores, vendedores ou usuários que o utilizam. Isto é, quanto maior o número de compradores, vendedores ou usuários, maior o efeito de rede – e maior o valor criado pela oferta.

Geralmente, “a vontade de pagar, para um comprador, aumenta à medida que cresce o número de compradores ou vendedores para o negócio”.

Na verdade, há muitas categorias de efeitos de rede.

⎯ Tipos de efeitos de rede 

No “The Network Effects Manual”, a empresa NFX esboça 13 categorias diferentes, incluindo aqueles a que estamos acostumados e são os principais tipos

  • “Personal” (Facebook), 
  • “2-Sided Marketplace” (Amazon), 
  • “2-Sided Platform” (iOS), e 
  • “Data” (Google).

Importante destacar que independente da categoria, o valor da rede cresce à medida que mais nodes são adicionados. 

Para se ter uma idéia do que estamos falando, no caso de “2-Sided Marketplace” como Amazon ou eBay, quanto mais vendedores houver, mais valor haverá para os compradores na rede. Em contrapartida, quanto mais compradores houver na rede, mais vendedores serão atraídos para integrarem a rede. 

Tais laços de feedback positivo podem levar a uma rápida expansão da rede quando o volante começa a girar.

Pois bem, a esta altura muitos devem ter concluído / estar se perguntando se os efeitos de rede são bons para os usuários, certo? 

Infelizmente, quando a situação envolve proprietários de “redes cativas”, isto é, redes privadas e centralizadas a resposta acertada é: “No início das redes, sim, os usuários são beneficiados. Mas quando medimos “o sucesso” das redes no longo prazo, percebemos que alguns desafios precisam ser superados.

⎯ Os obstáculos aos efeitos de rede

Geralmente este efeito de rede é ótimo quando elas tem espaço para escalar – isto é, quando a rede consegue comportar estruturalmente a demanda de novos usuários sem apresentar problemas técnicos como lentidão e travamento.  

No entanto, há casos em que este efeito de rede assume um viés negativo, minguando o valor da rede, principalmente quando elas estão em seu início e ainda não possuem infraestrutura suficiente para comportar novos usuários. Quando o efeito de rede assume esta direção negativa, em razão da falta de maturidade de sua infraestrutura, estamos diante do primeiro problema enfrentado por quem deseja iniciar uma rede e aproveitar seus efeitos.

1) O problema do “bootstrapping”

Na Web2, superar o problema do bootstrapping, geralmente implicava em esforços heróicos por parte dos empreendedores e, na maioria dos casos, acompanhado de um aporte de capital considerável em vendas e marketing

Ora, como o problema de bootstrapping nas redes da Web2 é mais comum do que se pensa, muitas redes que deveriam existir – e poderiam melhorar nosso bem-estar coletivo – simplesmente desapareceram. E isto, porque ninguém descobriu como inicializá-las e sustentá-las a ponto de alcançarem um efeito de rede positivo. 

Felizmente, o nascimento da Web3 nos trouxe uma poderosa ferramenta para superar este obstáculo – os incentivos via tokens. 

⎯ Como redes inicializadas com tokens ajudam a superar o bootstrapping?

A idéia básica das redes inicializadas com tokens é, logo no início da fase de bootstrapping, quando os efeitos de rede ainda não se firmaram, oferecer aos usuários uma utilidade financeira, recompensando-os com tokens, enquanto a utilidade da rede e do aplicativo ainda é baixa.

Assim, com o tempo, à medida que o efeito de rede e a utilidade nativa cresce, os incentivos via tokens diminuem e eventualmente vão a zero, presenteando o mundo com uma rede nova e bem dimensionada.

Como nada melhor que um exemplo para entender algo, vejamos dois projetos de redes inicializadas com tokens: Hellium e Arweave.

A Helium está tentando criar um concorrente de base para grandes empresas de telecomunicações, incentivando indivíduos a instalar equipamentos de rede em suas casas.

Aqui, o conceito de “telecomunicações de base”, de baixo para cima, pode finalmente acontecer com a tokenização propiciada pela Web 3. E o problema que a Hellium quer resolver é capacidade instalada de equipamento suficiente para proporcionar uma ampla cobertura de comunicação, ao mesmo tempo em que se constrói o lado da demanda. 

Neste contexto, a Hellium usa o poder dos incentivos de tokens para manter o lado da oferta, o que tem funcionado bem até agora. Hoje, a rede possui mais de 990.000 nodes espalhados por todo o mundo. 

Outra rede inicializada com incentivos de tokens é a Arweave, uma rede de armazenamento descentralizada, com um crescimento impressionante no último ano – veja aqui

Perceba que o uso de incentivos via tokens para inicializar uma rede tem se mostrado – não apenas eficazes, mas também – muito mais justos do que o modelo de inicialização de redes centralizado da Web2. Afinal, as pessoas que ajudam a construir uma rede não deveriam possuir uma parte significativa dela?

A Web3 permite que os usuários, desenvolvedores possuam uma parte significativa delas, enquanto também desbloqueia poderosas ferramentas aos fundadores que criam tais redes. Sobre este assunto, sugiro a leitura de outro artigo, “Web3 e o novo modelo de construção de organizações”.

Pois bem, agora que você já sabe como o incentivo via tokens pode solucionar o bootstrapping, vamos avançar mais um pouco e descobrir como o uso de tokens pode solucionar outro problema do efeito de rede.

2) O problema do “Imperative Abstraction

Já comentamos nesta coluna sobre o ciclo de vida das plataformas centralizadas na Web2 e vimos que ele é previsível. 

Em resumo, as plataformas (por definição) são sistemas com efeitos de rede multilaterais. 

Daí, à medida em que as plataformas centralizadas avançam na “curva S” de adoção, seu poder sobre os usuários e terceiros cresce constantemente, 

Quando então atingem o topo da “curva S”, seus relacionamentos com os participantes da rede mudam de soma positiva para soma zero, como podemos perceber na figura 1

Dessa forma, nas redes cativas, privadas e centralizadas da Web2, só a plataforma lucra com a contribuição dos usuários.

E isto se dá porque a maneira mais fácil de continuar crescendo é extrair dados dos usuários e competir com terceiros por lucro. O que é conhecido como Imperativo da Extração

O imperativo de extração é impulsionado pelo desejo de lucros enormes: quanto mais e melhor uma empresa extrai excedentes comportamentais, mais lucros ela pode obter. E isto é um problema, porque apenas as grandes corporações de tecnologia, provedoras e orquestradoras de redes cativas, conseguem extrair valor e lucrar com isto – sem que usuários e criadores de conteúdo tenham qualquer recompensa por sua contribuição neste processo.

E até pouco tempo, presumiu-se que o Imperativo de Extração era uma consequência inevitável dos negócios com efeitos de rede baseados na Web 2

Mas com o início da Web3, que trouxe redes descentralizadas abertas (não cativas) e tokenizadas, é possível mudar esse jogo.

Como a tokenização em redes descentralizadas elimina o Imperativo da Extração? 

Na Web2, o “Poder de Mercado” nos trouxe um cenário no qual há uma quebra nos interesses entre os participantes da rede e os proprietários da rede. 

Ou seja, a capacidade de exercer o poder de mercado repousa em dois fatores: 

  • Desalinhamento de incentivos: proprietários e participantes da rede possuem incentivos diferentes; e 
  • Ausência de alternativas realistas: os participantes da rede não têm alternativas realistas e de qualidade.

Tendo isto e conta, vejamos o que acontece com cada um desses fatores em um ecossistema descentralizado e tokenizado.

⎯ Como ecossistemas tokenizados alinham Incentivos na Web3?

Quando uma rede é de propriedade de uma empresa privada e centralizada como é a regra na Web2, o valor econômico acaba fluindo para longe dos participantes da rede e em direção a um grupo de acionistas, detentores de ações na corporação, mas que em sua maioria, não participaram da construção da rede. 

Já em uma rede descentralizada – onde não existe uma única entidade responsável pelo controle dessa rede –, a mesma dinâmica não se aplica.

Redes descentralizadas, de código aberto e tokenizadas resolvem o problema do alinhamento de incentivos entre fundadores e participantes da rede, quando projetadas adequadamente. 

Quando o software é público, e a organização fundadora da rede é uma entidade sem fins lucrativos, o “Imperativo de Extração” é eliminado –  porque literalmente não há acionistas com uma reivindicação de fluxo de caixa. 

O “valor” é mantido na própria rede, representado na forma de tokens. Todos que participam da atividade da rede, usando e acumulando tokens no processo, tornam-se efetivamente “proprietários” da rede. Como não há distinção entre proprietários e participantes, desalinhamento de incentivos.

⎯ Como ecossistemas tokenizados asseguram pressão competitiva com alternativas realistas na Web3?

O segundo fator que serve de base para o exercício do poder de mercado – a ausência de uma alternativa realista – é também uma ferramenta de centralização que não existe em uma rede de código aberto. 

Como empresas centralizadas detêm a propriedade intelectual dos ativos transacionados na rede, isto cria um abismo competitivo e protege a plataforma da pressão competitiva do mercado de preços e da necessidade de agradar aos participantes da rede.

Em contrapartida, redes tokenizadas adequadamente projetadas são executadas por software de código aberto, desenvolvido por fundações sem fins lucrativos, que não precisam se preocupar com interesses de acionistas.

Daí, redes baseadas em blockchains de código aberto herdam a capacidade da comunidade de discordar das decisões de liderança. 

Aqui, cabe citar o the DAO hack como exemplo, cuja comunidade Ethereum discordou se deveria, ou não, sobrescrever efetivamente a rede para reverter o hack, levando ao fork que acabaria resultando no Ethereum Classic.

Em resumo, uma rede tokenizada pode ser projetada de tal forma que ofereça tanto um balanceamento de incentivos entre proprietários e participantes, como alternativas significativas e de qualidade a seus participantes.

E é por isto que na Web3, os efeitos de rede são ainda mais poderosos.

Plataformas tokenizadas e descentralizadas geram duplos Efeitos de Rede

As redes descentralizadas e tokenizadas da Web3, devidamente projetadas – e capazes de atingir uma escala de rede semelhante à de seus pares centralizados na Web2 – , fornecerão substancialmente mais valor real para os usuários da rede.

Tal ocorre porque, além dos participantes das redes descentralizadas e tokenizadas passarem a receber recompensas – antes destinadas apenas aos proprietários das rede cativas –, há uma aceleração maior no crescimento dessas redes, porque todo o valor retorna aos seus participantes.

Ora, isto é revolucionário!! 

Redes tokenizadas são capazes de proporcionar todos os benefícios dos efeitos de rede sem os custos para seus participantes – ou seja, sem o Imperativo da Extração existente nas redes privadas. 

Perceba como esta “economia de custos” pode ir além do aspecto financeiro, na medida em que os benefícios aos participantes da rede também podem vir na forma de mais privacidade, propriedade dos dados e políticas de rede mais favoráveis.

Aqui, uma curiosidade. O termo “duplo efeito de rede” foi cunhado por Nick Soman para se referir ao efeito de rede adicional que os tokens podem criar ao fornecer um “mecanismo eficiente para incentivar os participantes da rede”.

Em resumo, a Tokenização pode melhorar a velocidade de crescimento da rede através de dois mecanismos:

  • Propriedade da rede
  • Incentivo às ações benéficas ao crescimento de tokens

Com relação à propriedade da rede, em redes blockchains bem projetadas, seus usuários também são detentores dos tokens. Portanto, eles têm interesse em ajudar essa rede a crescer, desde que acreditem que o crescimento da rede ajudará no valor de seu patrimônio em tokens.

Quanto ao incentivo às ações benéficas ao crescimento de tokens, as recompensas via token podem ser utilizadas para incentivar os comportamentos beneficiam o crescimento da rede. Por exemplo, tokens podem ser usados para impulsionar programas de reputação, ou para recompensar ações como compartilhamento social. 

A combinação dos fatores acima – o alinhamento dos incentivos criando mais valor a ser capturado, e a forma como a tokenização pode incentivar os usuários a serem agentes de crescimento – tem profundas implicações na rapidez com que uma rede pode crescer.

Pensamentos Finais

Como dito no começo do artigo, os efeitos de rede definem os negócios que mais impactam nosso dia a dia. 

Embora muitos ainda olhem ingenuamente para taxas e dados solicitados por plataformas Web2 como se eles fossem apenas o custo que pagamos pelos benefícios oferecidos, as redes descentralizadas baseadas em blockchain oferecem uma alternativa. 

Esta alternativa, possibilitada pelas tecnologias base da Web3, possibilita que os proprietários das redes passem a ser seus próprios participantes que, através da tokenização, adquirem não apenas um justo equilíbrio nos incentivos para permanecer na rede, mas também uma nova camada de incentivo econômico para expansão da rede.

Mas e você? Conseguiu entender o que são efeitos de rede e como a tokenização de plataformas descentralizadas ajuda a solucionar seus principais desafios? Compreendeu a importância dos efeitos de rede na Web3?

Acha que os negócios de rede do futuro serão organizados – não como corporações centralizadas com fins lucrativos construídas sobre modelos de negócios extrativistas, mas sim – como economias em redes descentralizadas, baseadas em tokens, com alinhamento de incentivos entre construtores e participantes de rede?

Conhecimento é poder!! Nos vemos em breve! 

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Tatiana Revoredo
Tatiana Revoredo é membro fundadora da Oxford Blockchain Foundation. LinkedIn Top Voice em Inovação e Tecnologia. Estrategista Blockchain pela Saïd Business School, University of Oxford. Especialista em Blockchain Business Applications pelo MIT. Especialista em Artificial Intelligence & Business Strategy pelo MIT Sloan & MIT CSAIL. Especialista em Cyber-Risk Mitigation pela Harvard University. Convidada pelo Parlamento Europeu para a “The Intercontinental Blockchain Conference”....
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