Os preços do petróleo caíram para o menor nível em dois meses após Estados Unidos e Irã fecharem um acordo de paz para reabrir o Estreito de Ormuz. Apesar do alívio imediato, operadores já se preparam discretamente para uma recuperação.
A razão está em uma condição presente no acordo. O Irã pretende cobrar um pedágio após um período de carência de 60 dias, custo que o mercado já pode estar inserindo nas projeções para os próximos meses.
Acordo com o Irã inclui pedágio sobre 20% do petróleo global
O acordo reabre o Estreito de Ormuz, rota marítima por onde passava cerca de um quinto do petróleo mundial antes de o conflito interromper o tráfego. Antes da guerra, as embarcações não pagavam tarifa para atravessar.
O Irã afirma agora que irá cobrar “taxas de serviço” ao fim dos 60 dias de passagem gratuita. O presidente Trump garante que a reabertura será permanentemente sem pedágio, enquanto o vice-presidente JD Vance e autoridades iranianas ressaltam as tarifas após o período de isenção.
O mercado reagiu ao cessar-fogo com alívio. O preço do petróleo Brent caiu cerca de 5% para próximo de US$ 83, enquanto o WTI recuou para menos de US$ 80, ambos nos menores níveis em alguns meses.
Essa queda reflete alívio na oferta no curto prazo. Contudo, a curva futura aponta maior cautela.
Curva acalmou, mas posições ficaram otimistas
Durante a guerra, a defasagem temporal (“backwardation”) do Brent atingiu níveis extremos. Na backwardation, o contrato do mês atual é negociado acima dos futuros, sinalizando escassez imediata.
A diferença entre os dois primeiros contratos do Brent chegou a aproximadamente US$ 10,27 em abril. Desde então, caiu para cerca de US$ 0,67, indicando que o mercado percebe menor aperto na oferta, mas ainda sustenta spread positivo.
O Brent mantém leve backwardation, sem entrar em contango, situação em que os contratos futuros superam os de curto prazo. Ou seja, a pressão imediata diminuiu, porém o mercado ainda não considera excesso de oferta.
O direcionamento das posições aponta tendência oposta. No último relatório Commitments of Traders, retrato semanal da CFTC sobre posições em futuros, especuladores reduziram apostas de queda em cerca de 9.300 contratos até 9 de junho.
Os contratos de opções confirmam esse cenário. No United States Brent Oil Fund (BNO), a relação put-call ficou próxima de 0,08, indicando predominância de calls sobre puts. A compra de calls continuou crescente, fazendo a relação cair para 0,06 com a divulgação da notícia do pedágio.
Assim, a curva já considera a reabertura, enquanto investidores apostam no cenário pós-reabertura. O impacto dessas apostas dependerá do valor do pedágio.
O contrato BRN2 vence cerca de um mês depois e o contrato à vista segue mais caro, evidenciando que a curva se acalmou, mas não ficou pessimista. Com isso, há espaço para que o pedágio volte a pressionar os preços, cenário alinhado à postura otimista dos investidores.
Impacto do pedágio em Ormuz nos preços do petróleo
Veja o cálculo: antes da guerra, o Brent era negociado perto de US$ 70 sem custo de trânsito. Pelo Estreito circulam cerca de 7,6 bilhões de barris de petróleo por ano.
Um pedágio de US$ 0,50, US$ 1 ou US$ 2 por barril garantiria ao Irã aproximadamente US$ 3,8 bilhões, US$ 7,6 bilhões ou US$ 15,2 bilhões por ano. A taxa de US$ 1 não é apenas teórica: durante o conflito, já se cobrava informalmente esse valor. Também há relatos de tarifas de até US$ 2 milhões por viagem.
O custo direto é pequeno e tende a ser absorvido, num primeiro momento, pelos produtores. Contudo, o maior impacto está no prêmio de risco, valor adicional pago no mercado diante da incerteza sobre a oferta.
Esse prêmio pesa mais agora porque a reserva está limitada. A Reserva Estratégica de Petróleo dos Estados Unidos, o estoque nacional de emergência, atingiu o menor nível em 43 anos.
A partir de uma reabertura normalizada próxima de US$ 80, analistas projetam que um pedágio suave pode acrescentar de US$ 2 a US$ 6, enquanto um cenário mais turbulento poderia adicionar US$ 10 ou mais. Isso levaria o Brent para a faixa acima dos US$ 80 até o patamar dos US$ 90, podendo ultrapassar US$ 100 se a reabertura ocorrer de forma desordenada.
Para esclarecer, um pedágio de US$ 1 ou mesmo US$ 2 não leva o Brent a US$ 100. Esse risco está relacionado a interrupções, não à taxa. Uma implementação conturbada que novamente restrinja o tráfego pode reativar o prêmio de risco de período de conflito. Esse temor, e não a cobrança, foi o que impulsionou o Brent acima dos US$ 100 durante o conflito.
Sinais de especialistas e do mercado convergem para esse risco.
Preço do petróleo, projeções e apostas apontam na mesma direção
Líderes do setor chamam atenção para essa possibilidade. Executivos da Chevron e ExxonMobil alertaram que o valor do barril Brent pode saltar para a faixa de US$ 150 a US$ 160 se os estoques continuarem caindo.
A Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA) espera que o Brent fique em média por volta de US$ 105 em junho e julho, com recuo no segundo semestre. O Goldman Sachs reduziu suas projeções após o acordo, mas advertiu sobre nova volatilidade se Hormuz não reabrir de forma estável.
Os mercados de previsão também refletem esse cenário. Na Polymarket, investidores estimam cerca de 16% de chance de o petróleo bruto alcançar máxima histórica até 31 de dezembro, ainda o período mais cotado mesmo após o acordo diminuir as probabilidades.
No momento desta reportagem, o preço do petróleo está próximo das mínimas de dois meses: o Brent por volta de US$ 83 e WTI perto de US$ 80. O próximo relatório sobre posições da CFTC, o primeiro a refletir as notícias sobre o pedágio, vai mostrar se a tendência otimista se manteve.
Uma reabertura limpa, sem pedágio, permitiria que o valor continuasse a cair em direção à projeção da EIA para a faixa dos US$ 70 altos. Um regime de cobrança de serviço contestado, após 60 dias, tornaria o mercado novamente restrito e impulsionaria os preços para acima dos US$ 80 e além.









