Lula pode impactar o mercado cripto brasileiro? Especialistas respondem

18 novembro 2022, 15:05 -03
Atualizado por Anderson Mendes
18 novembro 2022, 15:06 -03
EM RESUMO
  • Antes mesmo de assumir seu terceiro mandato como presidente, Lula já tem influenciado o valor do real e do Ibovespa.
  • Futuro presidente pode impactar o mercado cripto nacional?
  • Mesmo sem assumir um cargo no futuro governo, Henrique Meirelles pode ter papel de destaque quando o assunto é criptomoedas.
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Declarações recentes de Lula impactaram o preço do real perante outras moedas e o Índice Bovespa. O futuro presidente do Brasil pode ter essa mesma influência em relação as criptomoedas?  

Vencedor da última eleição presidencial com 50,83% dos votos válidos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciará seu terceiro mandato como presidente do Brasil no dia 1º de janeiro de 2023. Enquanto a posse não acontece, investidores e a população em geral aguardam e especulam as medidas que serão tomadas pelo petista e a sua futura equipe econômica, ainda não anunciada.

Durante seus dois primeiros mandatos (2003 – 2011), Lula conseguiu surpreender o mercado financeiro. Apesar de aumentar os gastos do governo, o ex-presidente controlou a inflação e conseguiu apresentar números de crescimento, com o Ibovespa subindo 500% no período. Não por acaso, a volta “aos tempos de ouro” foi um dos pilares de sua campanha este ano.

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Porém, o mercado parece mais desconfiado agora. Na última quinta-feira (17), durante seu discurso na COP27 da ONU, realizada no Egito, o futuro chefe de Estado defendeu a revogação da PEC do Teto de Gastos para conseguir um maior financiamento para os seus programas sociais. “Se eu falar isso vai cair a Bolsa, vai aumentar o dólar? Paciência”, disse Lula.

De fato, a declaração se mostrou uma profecia autorrealizável, mostrando o poder do petista no cenário econômico brasileiro. Essa mesma influência pode se estender para o mercado de criptomoedas no Brasil? Especialistas do setor revelam as suas opiniões para o BeinCrypto.

Lula e o mundo cripto

Para Andre Quadrado, gerente de produto web3/blockchain, o mercado de criptomoedas não será uma das prioridades iniciais do governo Lula. De fato, o futuro presidente e sua equipe precisarão lidar com questões mais importantes, como estabelecer uma maioria no Congresso para conseguir aprovar suas pautas de campanha, além de conquistar a confiança do sistema econômico tradicional, tanto local quanto internacional.

Porém, ele atenta que isso pode mudar caso a indústria cripto nacional continue crescendo. “Isso só irá mudar se ele perceber que o mercado pode impactar os seus planos. O mercado cripto brasileiro é um dos que mais cresce no mundo em perspectiva de usuários”. Com efeito, um estudo da Chainalysis mostrou que US$ 800 bilhões foram movimentados em criptomoedas no país nos últimos dois anos.

Todavia, vale ressaltar que o mundo cripto não é algo totalmente desconhecido do político e de sua equipe. Durante a campanha presidencial, Lula e outros grandes candidatos do PT registraram seus planos de governo na blockchain, afim de evitar possíveis fake news.

Além disso, o futuro chefe de Estado pode ter em sua equipe nomes já envolvidos neste setor.

A possível influência de Henrique Meirelles

Figura carimbada no cenário político-econômico nacional, Henrique Meirelles foi presidente do Banco Central (BACEN) durante o governo Lula e ministro da Fazenda durante o governo Temer (2016 – 2018).

Uma possível volta para o governo agrada o mercado, apesar de Lula parecer preferir outros nomes. Porém, mesmo que não assuma um cargo de importância, o economista pode ter papel crucial para o futuro do mercado cripto brasileiro, segundo Jaime Tavares.

O especialista em tokenização atenta para o fato de Meirelles, que assumiu o cargo de conselheiro da Binance em setembro deste ano, ter declarado apoio à Lula nas últimas eleições.

Henrique Meirelles fala durante evento de apoio à candidatura de Lula – UOL

Essa aproximação pode ser benéfica para “empresas e investidores ao serem criadas leis justas que favoreçam a indústria em geral”, visto que o ex-chefe da Fazenda pode atuar como um consultor de Lula em relação ao mundo cripto. Com isso, a Binance pode ampliar ainda mais o seu domínio no cenário nacional, visto que teria em um de seus consultores uma pessoa próxima ao presidente.

Possível piora do cenário econômico pode impulsionar as criptomoedas?

Para muitos economistas de linha mais liberal, a volta de Lula pode resultar em problemas para a economia brasileira. Tasso Lago, Fundador da Financial Move, acredita que o petista implementará uma política econômica voltada para o keynesianismo, “com maiores gastos para fomentar a economia e financiar o desenvolvimento. ”

O líder da maior escola de trading cripto do país destaca os possíveis problemas que essa política pode trazer:

“Se o risco Brasil sobe e o capital estrangeiro não entra com a mesma intensidade, isso faz com que o preço do dólar suba. Isso pode diminuir a confiança dos investidores internacionais no país. Se o país se endividar sem gerar riqueza, teremos mais uma crise”.

Para Flavia Jabur, jornalista especializada no mercado cripto, há muitas incertezas de qual será o “preço pago” para o financiamento dos programas sociais que o governo deseja implementar. Um alto endividamento pode, além dos problemas ressaltados por Lago, gerar uma alta inflação, fazendo o mercado cripto se tornar mais atrativo para a população em geral.

“É neste momento que o mercado cripto pode se destacar. Primeiro porque os criptoativos não dependem do governo, então em um momento de incerteza política e econômica pode ter uma corrida pelas criptomoedas”, diz Jabur.

De olho na Argentina

Derrotado nas eleições, o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) usou em sua campanha a hipótese de que o Brasil seguiria os passos da Argentina com a volta de Lula. Mesmo que essa possibilidade cause pânico no mercado e em grande parte da população, o petista não esconde a sua aproximação com o país vizinho.

Alberto Fernàndez, atual presidente da Argentina, foi o primeiro chefe de Estado a se encontrar com Lula após a vitória do petista. Após a reunião, o ministro da economia do país disse que o brasileiro apoia a criação de um Banco Central regional. Anteriormente, Lula já havia defendido a criação de uma moeda única para toda a América Latina.

Fonte: @alferdez

Caso o Brasil siga as mesmas políticas que colocaram a Argentina na sua atual crise, as criptomoedas e o dólar poderão ser um refúgio para a população, assim como ocorre no país vizinho, segundo Felippe Percigo.

O investidor e empresário no ramo de criptomoedas atenta para possíveis intervenções e proibições que o governo Lula pode fazer caso haja um êxodo do real e do sistema econômico tradicional do país numa eventual crise.

Quadrado segue o mesmo pensamento, dizendo que “uma maior migração de capital do sistema tradicional para cripto pode impulsionar mais discussões sobre uma regulamentação”. Ele ainda atenta para o fato da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) querer aumentar seu poder de influência na indústria. Logo após a vitória do petista, o presidente da autarquia, João Pedro Nascimento, manifestou o desejo de se encontrar com Lula para discutir a criação de uma nova divisão especializada em criptomoedas.

Porém, Percigo destaca que mesmo com essa repressão, que já ocorre em outros países em profunda depressão econômica como a Turquia e o Líbano, o Bitcoin (BTC) segue sendo uma boa forma de reserva de valor.

Lago e Jabur ainda afirmam que pelo fato das criptomoedas serem ativos dolarizados, elas podem atuar como hedges de inflação.

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Fundamentos seguirão os mesmos

Por fim, todos os entrevistados ressaltam que os fundamentos das criptomoedas seguirão os mesmos após a posse de Lula. Mesmo com o crescimento dessa indústria no país, o mercado cripto brasileiro não é capaz de trazer grandes mudanças e impactos a nível global.

Além disso, os ativos cripto seguem sendo uma boa forma de diversificação de patrimônio, algo recomendado em momentos de incerteza no cenário político-econômico nacional.

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