O Departamento de Justiça dos Estados Unidos encerrou a investigação criminal sobre Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, finalizando um processo que havia paralisado as atividades do Senado em relação ao indicado de Trump para substituí-lo.
A procuradora Jeanine Pirro anunciou a decisão na sexta-feira no X. Trata-se de uma mudança em relação à sua posição pública de dois dias antes, quando prometera recorrer da decisão de um juiz que bloqueou as intimações do seu gabinete ao grande júri.
Reversão rápida após resistência judicial
A investigação teve início em janeiro. O gabinete de Pirro abriu um inquérito junto ao grande júri a respeito do depoimento de Powell ao Senado em junho de 2025 sobre a reforma da sede do Fed.
Os promotores questionaram se Powell teria induzido os senadores ao erro sobre o escopo das obras nos edifícios Eccles e East, em Washington. Os custos divulgados do projeto aumentaram para cerca de US$ 2,5 bilhões, superiores à autorização inicial, próxima de US$ 1,9 bilhão. O impacto da inflação, a necessidade de remoção de amianto e chumbo e exigências de conservação histórica responderam pela maior parte do orçamento excedente. Nenhuma acusação foi apresentada.
O juiz James Boasberg, chefe da Corte Distrital dos EUA, anulou as intimações do Departamento de Justiça em 13 de março e confirmou a decisão em 3 de abril. Ele registrou que os promotores apresentaram “essencialmente nenhuma evidência” de crime.
O magistrado afirmou ainda que as intimações tinham finalidade “pretextual”, com o objetivo de pressionar Powell sobre decisões de juros. Pirro refutou essa interpretação e afirmou em 22 de abril que recorreria.
Dois dias depois, seu gabinete encaminhou o caso do estouro de custos para o inspetor-geral do Fed, responsável pela auditoria interna com acesso aos registros de compras públicas.
“Determinei o arquivamento da investigação enquanto o IG conduz esta apuração…Não hesitarei em reabrir um inquérito criminal caso os fatos assim exijam.”
Pirro divulgou o comunicado no X na tarde de sexta-feira.
Ultimato de Tillis libera caminho para Warsh
O encerramento retira um obstáculo político ao nome de Kevin Warsh, indicado por Trump para substituir Powell ao fim de seu mandato em 15 de maio. O senador Thom Tillis, da Carolina do Norte, republicano do Comitê Bancário do Senado, havia condicionado seu voto à retirada da ação pelos promotores.
Tillis classificou a investigação como “infundada” e “improcedente” durante a sabatina de Warsh em 21 de abril. Ele declarou que o arquivamento poderia ser realizado “em cinco minutos”.
“Se queremos confirmar o sr. Warsh, precisamos encerrar a investigação.”
Tillis fez o comentário durante a audiência de Warsh.
Warsh, ex-diretor do Fed sob George W. Bush, afirmou aos senadores que não atuaria como “marionete” de Trump. A confirmação colocaria um aliado do ex-presidente à frente do banco central poucas semanas antes da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto, em junho.
Powell declarou publicamente que a investigação era uma retaliação à política de juros do Fed. Seu mandato na presidência termina no próximo mês, mas ele pode permanecer como diretor até 2028. Ex-dirigentes do Fed e analistas de mercado trataram o caso como um teste à autonomia do BC norte-americano.
O cruzamento com o CLARITY Act
A decisão altera o calendário do Comitê Bancário do Senado para as próximas semanas. Tillis também é o principal negociador republicano da redação sobre rendimento em stablecoins no Digital Asset Market CLARITY Act, aprovado pela Câmara e que aguarda deliberação no Senado.
Ele pressionou o comitê a adiar o debate do CLARITY Act de abril para maio, alegando necessidade de maior participação dos bancos. A Associação de Banqueiros da Carolina do Norte pediu que os associados pressionassem seu gabinete por regras mais rígidas sobre recompensas atreladas a saldos em stablecoins.
Os bancos defendem o banimento completo de rendimentos passivos. Empresas de cripto defendem a manutenção de incentivos baseados em atividade. Um acordo parcial permitindo recompensas vinculadas ao uso de plataformas terceirizadas está em discussão, mas não foi consolidado.
Com a confirmação de Warsh deixando de depender da investigação no Departamento de Justiça, o comitê ganha espaço na agenda para a semana de 11 de maio, primeira janela possível para a deliberação sobre cripto. Entidades do setor alertam que novos adiamentos podem empurrar reformas estruturais de mercado para 2027.
A análise do inspetor-geral do Fed e a votação de Warsh no comitê são os próximos pontos de pressão. O eventual retorno do caso Powell dependerá dos achados do órgão de controle nos registros das obras.





