O fundador da Binance, Changpeng Zhao (CZ), trouxe ao debate uma proposta que divide a comunidade: congelar os endereços inativos vulneráveis à computação quântica caso os donos não os migrem para carteiras seguras após uma futura atualização da rede. Ele foi claro ao dizer que a decisão cabe à comunidade, não a ele.
A proposta surgiu no podcast Galaxy Brains, ao lado de Alex Thorn, chefe de pesquisa da Galaxy Research. Após a repercussão, CZ precisou corrigir interpretações que o colocavam como defensor pessoal do congelamento. “A interpretação popular está imprecisa”, afirmou.
Por que o tema voltou à pauta
O debate ganhou força em março, quando a Google Quantum IA publicou um estudo indicando que um ataque à criptografia do Bitcoin poderia exigir menos de 500 mil qubits e ser executado em minutos, bem abaixo das estimativas anteriores. O risco é direto: um computador quântico suficientemente poderoso pode derivar chaves privadas a partir das públicas e esvaziar carteiras.
Mais de um terço de todos os BTC já teve a chave pública exposta na blockchain, deixando esses ativos em endereços suscetíveis ao ataque quântico. A solução técnica existe, a adoção de criptografia resistente à computação quântica, mas coordenar essa mudança em toda a rede pode levar anos.
O que CZ propôs de fato
Zhao não defendeu confisco nem anunciou qualquer ação da Binance. A proposta que ele trouxe ao debate prevê estipular um prazo de cerca de um ano para que os donos de endereços vulneráveis migrem para carteiras seguras. As moedas que permanecerem paradas após esse período seriam bloqueadas por meio de um fork, impedindo que qualquer parte as movimente.
Ele também reconheceu um obstáculo prático: distinguir as carteiras de Satoshi das de outros mineradores antigos é tecnicamente difícil. Satoshi Nakamoto minerou cerca de 1,1 milhão de BTC entre 2009 e 2010, estimativa baseada no padrão Patoshi identificado pelo pesquisador Sergio Demian Lerner. Com o preço atual do Bitcoin por volta de US$ 63.244, esse montante vale aproximadamente US$ 70 bilhões.
CZ já havia alertado sobre os riscos quânticos anteriormente. Sua posição se alinha ao BIP-361, proposta de Jameson Lopp e outros cinco pesquisadores. O texto prevê o bloqueio de envios para endereços vulneráveis cerca de três anos após a ativação, com anulação de assinaturas antigas dois anos depois.
Os próprios autores do BIP-361 apresentam o dilema com clareza: um invasor quântico poderia capturar os ativos expostos, os mineradores poderiam recuperá-los aos poucos, ou a rede poderia bloqueá-los, impedindo que qualquer parte fique com eles. A proposta ainda cita o próprio Satoshi sobre moedas perdidas: “Moedas perdidas só tornam as moedas dos outros um pouco mais valiosas. Pense nisso como uma doação para todos”, conforme registrado no documento.
Disputa judicial e princípio filosófico
O tema também tem frente jurídica. Um autor anônimo e duas LLCs de Wyoming contestam uma ação de bem abandonado em Nova York, buscando reconhecimento de posse sobre 39.069 endereços inativos. Um relatório da Galaxy, assinado por Thorn, avalia que o grupo dificilmente terá êxito.
No centro do debate está um princípio que muitos consideram inegociável: ninguém pode tomar os ativos de outro usuário. Qualquer bloqueio forçado seria interpretado por boa parte da comunidade como confisco.
CZ reconheceu a contradição, mas deixou o alerta: a inação também tem preço, e pode resultar no pior cenário possível.









