O Brasil encerrou o primeiro trimestre de 2026 como o quinto maior mercado global de criptomoedas no varejo, com US$ 40,4 bilhões em volume transacionado. Os dados são do Q1 2026 Global Crypto Adoption Index, relatório publicado pela TRM Labs nesta quinta-feira (23).
O país aparece atrás apenas de Estados Unidos, Coreia do Sul, Rússia e Índia no ranking que cobre mais de 200 jurisdições. O Brasil ultrapassou a Turquia e o Reino Unido, que haviam ficado à frente no levantamento anterior.
Apesar da boa colocação, o volume brasileiro recuou 12% em relação ao mesmo período de 2025, quando o país movimentou US$ 45,7 bilhões no varejo cripto. A queda acompanha a contração global do setor.
Queda no varejo cripto brasileiro acompanha tendência global
O mercado global de criptoativos no varejo movimentou US$ 979 bilhões no primeiro trimestre, baixa de 11% na comparação anual. Esse é o segundo trimestre consecutivo de retração, a sequência mais longa desde o mercado de baixa de 2022.
Para a TRM Labs, a queda tem causas majoritariamente macroeconômicas. O trimestre foi marcado por um cenário global de aversão a risco, influenciado pela incerteza sobre a política tarifária dos Estados Unidos, pelo dólar forte e por juros reais elevados.
O Bitcoin caiu 22% no trimestre e encerrou o período próximo de US$ 68 mil. O comportamento do ativo reforça a correlação entre o varejo cripto e as condições macroeconômicas globais.
Top 5 do ranking concentra atividade do varejo cripto
Os Estados Unidos mantiveram a liderança com US$ 213,3 bilhões em volume, quase três vezes o valor do segundo colocado. A Coreia do Sul ficou em segundo, com US$ 66,6 bilhões, seguida pela Rússia (US$ 47,5 bilhões) e Índia (US$ 46,2 bilhões).
O Brasil aparece logo depois, com seus US$ 40,4 bilhões. A Turquia, que ocupava a sétima posição no ranking anterior, subiu para o sexto lugar com US$ 34,9 bilhões, após crescimento de 7% ano contra ano. Foi o único grande mercado em expansão no período.
Reino Unido (US$ 34,6 bilhões), Vietnã (US$ 31,6 bilhões), Ucrânia (US$ 29 bilhões) e Alemanha (US$ 25,3 bilhões) completam o top 10.
Mercados desenvolvidos sentem mais a contração
O relatório destaca uma divergência entre economias desenvolvidas e emergentes. Mercados com moeda estável e capital doméstico competitivo registraram as maiores quedas. Os Estados Unidos caíram 11%, a Coreia do Sul recuou 28%, o Reino Unido cedeu 17% e a Alemanha caiu 25%.
Já as economias emergentes mostraram mais resiliência. A Índia teve queda de apenas 6%, enquanto Turquia, América Latina e sul asiático mantiveram volumes firmes quando ajustados pelo poder de compra.
Segundo a TRM Labs, essa diferença reflete perfis distintos de demanda. Em países com política monetária restrita ou controles de capital, o cripto funciona como reserva de valor e “dólar paralelo”. É um uso por necessidade, e não especulativo, portanto menos sensível ao ciclo global de liquidez.
Venezuela mostra força das stablecoins na América Latina
A Venezuela ocupou o 17º lugar no ranking global, com US$ 17,9 bilhões em volume atribuído ao varejo. O país subiu cinco posições em relação ao primeiro trimestre de 2025.
As stablecoins, criptomoedas atreladas a moedas fiduciárias como o dólar, dominam a atividade cripto venezuelana. O livro de ordens P2P da Binance mostra 2.565 anúncios ativos em bolívares (VES) em abril de 2026, sendo 90,2% denominados em USDT. O modelo P2P (peer to peer) conecta diretamente comprador e vendedor, sem intermediário institucional.
Três fatores estruturais sustentam esse padrão: a desvalorização persistente do bolívar, controles de capital que limitam o acesso a moeda estrangeira e a existência consolidada de mercados paralelos informais.
Stablecoins em euro crescem 12 vezes sob regulação do MiCA
O relatório também aponta a expansão acelerada das stablecoins denominadas em euro. O volume mensal saltou de US$ 69 milhões em janeiro de 2025 para US$ 777 milhões em março de 2026, crescimento de 12 vezes em 15 meses.
As stablecoins em dólar ainda dominam o mercado, com US$ 274 bilhões processados em março de 2026 por prestadores de serviços de ativos virtuais (VASPs) voltados ao varejo. Mesmo assim, as versões em euro vêm ganhando tração.
A TRM Labs atribui o crescimento à clareza regulatória proporcionada pelo MiCA (Markets in Crypto-Assets), marco regulatório europeu para criptoativos. O movimento também reflete demanda por trilhos de liquidação em moedas não dolarizadas, diante da incerteza sobre a política comercial dos Estados Unidos.
Irã sofre com sanções e queda de 59% no volume
O Irã registrou queda de 59% no volume cripto atribuído desde o primeiro trimestre de 2024. O fluxo mensal para corretoras iranianas caiu do pico de US$ 2,1 bilhões no último trimestre de 2024 para US$ 510 milhões no início de 2026.
A contração reflete o aperto das sanções norte-americanas. Em janeiro, o Tesouro dos Estados Unidos sancionou pela primeira vez duas corretoras de criptoativos, Zedcex e Zedxion, por operações ligadas à Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC).
Metodologia do índice de adoção cripto
A TRM Labs calcula o volume atribuído a cada país aplicando os dados mensais de tráfego web da SimilarWeb sobre as transações on-chain dos VASPs. O levantamento aplica filtro de varejo, excluindo fluxos institucionais, serviços de custódia, mineração e OTCs.
Essa filtragem removeu cerca de US$ 267 bilhões em volume do total do trimestre. A análise cobre aproximadamente 432 entidades VASP com dados de tráfego disponíveis.





