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Adoção de web3 virá com crescimento de usos de caso, segundo esse empresário

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Atualizado por Júlia V. Kurtz

A migração para a web3 é uma necessidade para muitas empresas. Para fazer isso, é necessário contar com o apoio de desenvolvedores que entendam do assunto e saibam trabalhar com tecnologias novas, como blockchain.

Daniel Cukier é o fundador da WEB3DEV, uma comunidade voltada para a educação e formação de desenvolvedores especializados em web3 e blockchain. Formado em Ciência da Computação pela Universidade de São Paulo em 2004, ele é desenvolvedor desde 1995.

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Cukier concluiu o doutorado em 2017 em Ciência da Computação pela USP. Nesta conversa com o BeInCrypto, ele fala sobre o mercado web3 no Brasil, o interesse das empresas e como é fomentar uma comunidade voltada a tecnologias emergentes.

  • Como a WEB3DEV funciona?

A empresa começou no início de 2022. Nós criamos a comunidade antes, e, em um primeiro momento, mais como uma necessidade. Era algo totalmente pretensioso.

Nós gostamos de web3 e vemos que há muitos desenvolvedores que não sabem o que está acontecendo. Nós vemos esse universo enorme de possibilidades para construir novas tecnologias e não há material em português, não existe conteúdo.

As empresas, por outro lado, precisam de profissionais e não estão encontrando. Portanto, nós criamos essa comunidade onde nós poderíamos crescer e desenvolver o mercado com novos talentos nessas tecnologias.

Em seguida, nós abrimos um servidor no Discord e chamamos algumas pessoas. Depois, nós criamos conteúdo educacional para web3 voltado a desenvolvedores, uma vez que o que o que havia disponível era voltado para o público em geral.

Há tutoriais sobre como criar uma carteira, como investir, como ganhar dinheiro, como evitar pirâmides. Mas não havia nada sobre como desenvolver uma blockchain ou como fazer um smart contract. Enfim, não havia informações sobre como criar um protocolo diferente e como os que já existem funcionam.

Então nós decidimos criar a comunidade com esse objetivo, de aprender, até porque nós mesmo não sabemos de tudo sobre esse assunto e nós poderíamos criar esse ambiente coletivo de aprendizado e construção de ferramentas.

  • Como você começou a trabalhar com web3?

Eu fui uma das pessoas que entrou por último na comunidade. Antes disso, eu trabalhava em uma fintech tradicional que oferecia crédito para estudantes. Nós tínhamos um time de engenheiros com 80 pessoas desenvolvendo sistemas para ajudar estudantes a ter acesso a financiamento para pagar a faculdade.

Eu entrei nessa empresa para a ajudar a ter tecnologias mais avançadas e poder fornecer crédito mais barato e mais eficiente. Educação, para mim, sempre foi um tema importante porque eu sempre quis ajudar a construir um ambiente educacional mais favorável para as pessoas. Eu acredito muito na educação como um poder de transformação da sociedade.

E foi aí que eu comecei a estudar tecnologias e soluções diferentes. Em seguida, eu encontrei a web3 e percebi que havia algo ali que ninguém estava de olho. E também havia as finanças descentralizadas (DeFi) para levantar capital sem precisar de um banco, de um governo, ou um contrato. Parecia algo muito legal.

E quando eu entrei em contato com isso, eu descobri que essa era a solução que eu estava buscando para um caminho totalmente inovador dentro da empresa. Eu tentei trazer esse tema como uma possibilidade de mudança de produto, ou de implementar um protótipo para fazer alguma coisa dentro desse tema. Entretanto, eu não consegui fazer que a empresa fizesse uma mudança, nem conversando com outros executivos.

Eu também não consegui muito financiamento ou apoio interno do time. Mas o time e o conselho executivo estavam de olho em soluções em potencial, só que eles não queriam olhar especificamente para blockchain.

Só que eu estava apaixonado pela tecnologia e certo de que aquilo era o futuro. Todos os créditos serão dados através de blockchain. Essa era a minha crença. E como a minha percepção de futuro não estava mais casada com a da empresa, então eu saí e, em seguida, comecei a estudar blockchain.

  • Como é o cenário da web3 no Brasil?

Isto foi entre 2020 e 2021. Eu estava determinado a fazer algo com a tecnologia, mas ainda não sabia o quê. E foi nesse momento que eu senti dificuldade em entender o que era a web3. Eu falava com as pessoas e ninguém nunca tinha ouvido falar disso.

Era muito difícil você entender tudo aquilo. Eu levei muito tempo, praticamente um ano, para entender o básico de como eu poderia usar a web3 para solucionar problemas. Depois disso, eu percebi que havia dois tipos de empresas, quando você vai conversar com elas.

Há empresas que querem fazer algo na web3, mas elas são uma minoria. A maior parte simplesmente ignora e não quer saber do assunto. Entre as que querem fazer algo no setor, nós vemos uma grande maioria delas que que não sabe como entrar e está perdida.

Há muita gente falando sobre web3, fazendo barulho. Entretanto, elas não estão criando nada de fato, porque não entendem e não conseguem aplicar o conhecimento. Esse era o cenário de 2022.

E, ao longo desse ano, eu não vi muita evolução. No Brasil, por outro lado, a coisa ficou um pouco pior. Nós tínhamos um pessoal empolgado. Então ocorreu o colapso da Terra Luna], da FTX e de vários projetos. E isso fez com que muita gente saísse.

A minha percepção, quando eu comecei, é que não evolui muito em termos de adoção, e sim em termos de conhecimento. O Brasil está muito atrasado, mas, por outro lado, eu sinto que existem coisas pontuais que estão avançando, como a própria WEB3DEV, que saiu do zero e tinha 200 pessoas em janeiro de 2022. No fim de dezembro, nós tínhamos 5.500 pesssoas.

O interesse estava crescendo e, esse ano, continua crescendo. Há muita gente interessada, muita gente buscando, muita gente aprendendo. Eu sinto que é um momento para quem já está dentro mostrar que está ficando forte e aplicando essa força. Quem está dentro da web3 está se preparando, está construindo.

É um momento sem muito oba oba, ao contrário do que ocorreu em 2021. Nós estamos em um bear market em que sobrou só a galera que continua crescendo, desenvolvendo. Se você olhar para o mercado, verá que ele é nulo comparado com tudo o que pode ser.

  • Por que as empresas no Brasil são resistentes à adoção de blockchain?

Qualquer adoção, seja por empresas grandes ou menores, é positiva para o crescimento do ecossistema. O problema da web3 é que a própria definição dela é meio confusa. O que é e o que não é web3, afinal?

Nós precisamos falar de coisas específicas, como a adoção de blockchain, que é um dos elementos da web3, a adoção de políticas de governança baseadas em tokens, a descentralização.

Em primeiro lugar, nos precisamos separar o que de fato está sendo adotado e o que não está. Em seguida, você vai perceber que todo mundo está falando de algo e ninguém está adotando.

Um exemplo é o ChatGPT e a geração de conteúdo automático baseado em inteligência artificial. Há sistemas que usam IA para aumentar a produtividade e resolver problemas.

Ou seja, a adoção de inteligência artificial já é algo massivo e plenamente aceito por todo mundo. Não tem empresa que diga que não vá adotar.

Esta é uma tecnologia que, eu não tenho dúvidas, as empresas precisam adotar com urgência, porque o diferencial é muito grande. É uma nova corrida para ver quem vai adotar IA primeiro.

O blockchain, por outro lado, é algo diferente. A tecnologia entra na categoria de ceticismo, as empresas não conseguem enxergar onde ela se encaixa em seu negócio e, de fato, talvez ela não tenha nada a ver com o negócio.

Por outro lado, há empresas que estão adotando blockchain, mas para contextos muito específicos. Portanto, podemos dizer que se o seu negócio não é baseado em blockchain, há poucos motivos para usar uma blockchain.

E aí você tem um mercado chamado web3, em que as empresas estão criando organizações autônomas descentralizadas (DAOs) e protocolos. E, aí sim, elas criam negócios baseados em web3.

Esse negócio de comunidade descentralizada é um elemento muito forte de web3: como criar a comunidade, como conseguir governança do produto etc.

Eu não sei se o Itaú, por exemplo, adotar blockchain, todos do mercado vão adotar blockchain em seguida. Na verdade, eu até acho que não interferiria muito. Eu acho que a blockchain vai ser adotada conforme empresas e negócios de blockchain estejam, de fato, resolvendo problemas reais e as outras empresas realmente enxerguem uma vantagem.

Por exemplo, há empresas que estão inovando na parte ambiental, criando rastreamento de insumos ou da geração de poluição. Elas querem usar blockchain para fazer a governança da emissão de resíduos. São muitas possibilidades.

Se uma empresa usar essa solução para resolver seu problema, ele vai ter um ganho por essa destinação. Quem criou o serviço sabe que precisou de blockchain, mas quem usou não está muito preocupado com os específicos da tecnologia e sim quais são os incentivos para usá-la.

E esse incentivo normalmente é um custo menor, uma receita extra, ou mesmo se enquadrar em uma lei. Não importa qual seja o benefício, a empresa vai usar uma solução baseada em blockchain para suprir uma necessidade.

Um vendedor no centro de São Paulo, por exemplo, vai aceitar o pagamento em criptomoedas não porque ele acredita na tecnologia e sim porque, se não aceitar, vai começar a perder clientes.

A própria demanda do mercado vai fazer com que as pessoas comecem a adotar. Mas isso não significa que o dono de um restaurante vá implementar um sistema em blockchain para gerenciar o local. Até porque o cozinheiro vai continuar usando a mesma panela, o garçom vai entregar comida do mesmo jeito. Nada vai mudar só porque ele adotou blockchain.

  • Que tipos de empresas estão em busca de profissionais de web3?

Isso é bem variado. Há vários tipos de empresas, como grandes bancos. E eu acho que os bancos no Brasil, como Itaú, Santander e BTG, já estão olhando para web3. A própria CVM e o Banco Central estão cientes. Ou seja, há um nicho do setor financeiro de olho.

Há também muito empreendedorismo, com startups surgindo todos os dias com o objetivo de inventar um novo sistema de pagamento, como um novo PayPal, uma forma de investir usando blockchain. Elas tentam resolver problemas reais das pessoas nesse nicho.

Mas há também empresas do mercado de jogos, onde há uma comunidade muito grande. Há games usando blockchain, NFTs, blockchain e semelhantes.

E há uma galera do e-sports tentando tokenizar. Há fan tokens de futebol, de basquete.

Também há empresas fazendo rastreamento de suprimentos, de créditos de carbono. Nós vemos muitos exemplos de rastreamento de insumos hospitalares, de rastreamento de produção agrícola.

De suprimentos não é hospitalar, então a gente vê exemplos de há vamos fazer rastreamento de de de insumos hospitalares, rastreamento de insumos, de produção.

Por outro lado, há pessoas interessadas no metaverso, em moda virtual. É no mundo digital que muitas empresas estão conectadas.

E há também artistas que entraram nesse mundo com coleções de NFT. Eles não são necessariamente empresas e sim artistas, coletivos ou comunidades que querem criar alguma coisa e estão usando blockchain como pano de fundo.

  • O número de pessoas que se interessam em aprender sobre web3 tem aumentado?

Esse é o grupo de pessoas que mais cresce na WEB3DEV. No início, o pessoal que já tinha algum conhecimento foi chegando e recepcionando as novas pessoas.

Então, quanto mais gente eu tenho formando, maior a minha capacidade de absorver novas pessoas na comunidade para aprender.

Nós temos, pelas minhas contas, cerca de 2 milhões de desenvolvedores no Brasil. Pode ser mais, pode ser menos, mas é muita gente. Nós temos, por enquanto 6.000 membros, ou seja, menos de 1% do total.

Nós temos, agora, uma comunidade em espanhol que começamos a construir em 2022. Ela já está no mesmo estágio em que nós estávamos no começo de 2022. Ou seja, ainda há muita gente para entrar na comunidade, porque tudo isso é muito novo.

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Júlia V. Kurtz
Editora do BeInCrypto Brasil, a jornalista é especializada em dados e participa ativamente da comunidade de Criptoativos, Web3 e NFTs. Formada pelo Knight Center for Journalism in the Americas da Universidade do Texas, possui mais de 10 anos de experiência na cobertura de tecnologia, tendo passado por veículos como Globo, Gazeta do Povo e UOL.
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