O Open USD (OUSD) foi lançado nesta terça-feira com o apoio de mais de 140 empresas, levantando uma questão relevante para quem obtém rendimento em USD Coin (USDC) via Aave.
O novo token permite que empresas realizem emissão e resgate gratuitamente e direciona a receita de reservas para os parceiros. Essa estrutura mira a Circle, mas os efeitos podem atingir os mercados de finanças descentralizadas (DeFi), onde o USDC gera rendimento.
Como o USDC gera rendimento no Aave
Os credores que fornecem USDC ao Aave não pagam juros para a Circle. Eles recebem dos tomadores que pagam para retirar USDC do pool.
O Aave vincula esses índices à utilização, ou seja, à participação do USDC fornecido já captado por tomadores. Quando a utilização supera o ponto considerado ideal, as taxas de fornecimento sobem rapidamente para atrair depósitos.
Por isso, a demanda por empréstimos é o fator determinante. Fornecedores de USDC no principal mercado Ethereum do Aave recebem cerca de 3,4%, segundo dados da DefiLlama, embora essa taxa varie conforme a procura.
O mesmo mercado pagou rendimentos médios de um dígito e chegou próximo de 18% em 2024.
A legislação federal incentiva poupadores a buscarem alternativas onchain. O GENIUS Act, sancionado em julho de 2025, proíbe emissores de stablecoins de remunerarem diretamente os investidores.
Esse limite ao rendimento das stablecoins tornou plataformas como o Aave a principal alternativa para quem busca retorno. O Aave também lançou um mercado de empréstimo institucional para ativos tokenizados.
Por que o Open USD pode pressionar esses rendimentos
O Open USD foca na demanda. Entre seus apoiadores estão Visa, Mastercard, Stripe, Coinbase e BlackRock, empresas que controlam grande parte dos fluxos de pagamentos corporativos internacionais.
O formato do token oferece incentivo para migração. Os parceiros ficam com a maior parte dos juros que o Open USD obtém sobre reservas. Essa receita foi responsável por 99% do faturamento da Circle em 2024, conforme documento enviado à SEC.
A Coinbase é o caso mais emblemático. Em 2024, a Circle repassou à exchange US$ 908 milhões para a distribuição do USDC. Lá, a exchange também fica integralmente com as receitas obtidas sobre os saldos mantidos.
Agora, a Coinbase apoia a nova concorrente, e o acordo com a Circle deve ser renovado em agosto.
A Stripe avançou ainda mais e integrou sua plataforma ao novo token.
“O Open USD será o stablecoin padrão para empresas que utilizam a Stripe”, afirmou Will Gaybrick, presidente de Tecnologia e Negócios da Stripe, no anúncio oficial.
A influência da Stripe é concreta. Zach Abrams, agora à frente da Open Standard, foi cofundador da Bridge, empresa de stablecoin adquirida pela Stripe em início de 2025.
Se estas companhias transferirem seus fluxos de liquidação para o Open USD, a demanda antes voltada ao USDC pode diminuir. Menor interesse pelo USDC no Aave reduz a utilização, o que leva à queda das taxas pagas aos fornecedores.
A Circle se destacou quando o crescimento de transferências corporativas do USDC superou o da Tether (USDT). Muitos desses mesmos canais agora sustentam a nova concorrente. O fator decisivo será o tempo, já que o Open USD ainda não está totalmente operacional e não consta em mercados do Aave.
A resposta da Circle e o que investidores DeFi devem observar
A Circle defende que sua vantagem é difícil de ser replicada. O CEO Jeremy Allaire afirma que a escala e liquidez conquistadas ao longo do tempo garantem a resiliência do USDC.
“Redes de stablecoins são negócios baseados em plataforma e efeitos de rede, estabelecidos ao longo dos anos, tendem a estruturas em que um dominante leva quase todo o mercado e se assemelham a outros mercados utilitários de plataformas da internet”, escreveu Allaire em uma publicação no X.
O USDC ainda possui ampla liquidez em exchanges e licenças tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Ele manteve sua posição regulatória europeia mesmo enquanto o USDT recua da região. Seu fornecimento está próximo de US$ 73 bilhões, atrás do USDT, que soma cerca de US$ 184 bilhões.
O histórico também oferece à Circle uma vantagem em sua comunicação. Visa, Mastercard e Stripe apoiaram o projeto Libra do Facebook em 2019, mas abandonaram a iniciativa após alguns meses diante da pressão de órgãos reguladores.
O efeito negativo imediato mais intenso atingiu as ações da Circle, não o USDC. As ações da Circle Internet Group (CRCL) caíram cerca de 17% nesta terça-feira (30) e acumularam baixa de aproximadamente 40% no último mês.
Sua exclusão dos cinco principais índices Russell Growth impulsionou vendas automáticas baseadas em regras no mesmo período.
Para quem utiliza DeFi, as ações imediatas são objetivas. É possível monitorar o uso do Aave e suas taxas em painéis atualizados em tempo real. Diversificar depósitos entre diferentes protocolos e redes reduz o risco concentrado em um único ambiente.
Novas estratégias de rendimento onchain também podem surgir à medida que o Open USD for implementado.
Os próximos meses colocarão uma questão à prova: o Open USD terá demanda suficiente para afetar as taxas do Aave, ou a vantagem inicial da Circle vai se manter?









