Michael Saylor afirmou na terça-feira que o Bitcoin venceu, e que seu maior risco agora vem de dentro da própria comunidade. Sua empresa, a Strategy, não comprou nenhum BTC por cinco semanas consecutivas.
A empresa de inteligência em blockchain Arkham analisou a pausa. A Strategy (antiga MicroStrategy) montou uma reserva de US$ 3,75 bilhões em caixa. Agora há dois cronômetros em contagem simultânea que apontam para direções opostas.
Por que Michael Saylor está alertando sobre o Bitcoin agora?
O momento não é acaso. A BIP-110 é uma proposta de soft fork de um ano que prevê limitar o tamanho de campos arbitrários de dados em transações do Bitcoin. Elaborada pelo desenvolvedor Dathon Ohm e implementada no Bitcoin Knots, a proposta iniciou o sinal dos mineradores em 1º de dezembro de 2025.
A maioria dos mineradores ignorou a proposta. Isso não a impede de avançar.
O cronograma de implantação prevê um período obrigatório de lock-in para agosto de 2026. Quando esta janela abrir, blocos que não sinalizarem serão considerados inválidos. O lock-in torna-se inevitável. A ativação ocorrerá duas semanas depois e as regras expiram cerca de um ano após a entrada em vigor.
Em outras palavras, Saylor não está debatendo algo que precisa vencer uma votação. Ele se posiciona contra um processo que possui data marcada. Esse prazo está próximo.
O que Saylor realmente disse sobre as regras de consenso
O presidente executivo da Strategy classificou as regras de consenso do Bitcoin como uma constituição. Elas definem propriedade, escassez, liquidação e autoridade. Mudar o texto para agradar qualquer grupo, segundo Saylor, prejudica todos os participantes atuais e futuros.
Ele citou três pontos:
- Na sua interpretação, a BIP-110 censura transações válidas pagantes de taxas.
- Covenants aumentam a superfície de ataque.
- Blocos maiores reduzem a escassez de espaço e elevam os custos de validação.
Sua principal alegação técnica está ligada à receita dos mineradores. Os subsídios dos blocos caem pela metade a cada 210 mil blocos. Assim, as taxas precisarão compor parcela maior do orçamento de segurança com o tempo. Enfraquecer o mercado de taxas, segundo Saylor, prejudica a rede.
Já os apoiadores da proposta defendem que o armazenamento arbitrário de dados aumenta o trabalho para operadores de nós e afasta pagamentos.
Saylor não é o único crítico e não há consenso entre eles. Adam Back, CEO da Blockstream, também se posicionou contra a proposta. Seu alerta sobre risco de fork focou no novo limite de ativação de 55%, e não em censura.
O alerta anterior de Saylor sobre a BIP-110 definiu a proposta como o maior risco autoinfligido do Bitcoin. O impasse divide desenvolvedores do Bitcoin há meses.
Por que a Strategy parou de comprar Bitcoin?
Porque vender ações ficou mais barato do que abrir mão da convicção.
Um formulário 8-K protocolado em 27 de julho confirmou o incremento de US$ 525 milhões à reserva em dólar. O total alcançou US$ 3,75 bilhões, quantia que a empresa contabiliza como cobertura para 2,1 anos de dividendos face a obrigações anuais de cerca de US$ 1,76 bilhão em ações preferenciais.
O dinheiro veio da emissão de ações, não da venda de moedas. Na semana passada, a Strategy vendeu US$ 544,5 milhões em ações MSTR. Aproximadamente US$ 467 milhões e US$ 263,5 milhões foram captados nas duas semanas anteriores, somando US$ 1,26 bilhão em três semanas.
Essas ações foram vendidas a preços baixos. MSTR está cotada próxima de US$ 96,66, queda de cerca de 76% em relação ao pico de US$ 414,36 nos últimos 12 meses. Cada US$ captado agora custa muito mais participação do que há um ano.
Quão distante está a meta de 1 milhão de BTC?
A Strategy declarou que pretende atingir 1 milhão de BTC até o final de 2026. Atualmente detém 843.775. A diferença é de 156.225 BTC.
Restam cerca de 22 semanas no ano. Para zerar essa diferença, seria necessário adquirir em torno de 7 mil BTC por semana, ou aproximadamente US$ 447 milhões semanais nas cotações atuais. Por ora, a empresa não está comprando nada.
Por que isso importa para investidores de BTC e MSTR?
O custo médio da Strategy está próximo de US$ 75.494 por moeda. O Bitcoin é negociado em torno de US$ 63.817, com queda de aproximadamente 1,5% nas últimas 24 horas e cerca de 49% abaixo do pico alcançado em outubro de 2025, de US$ 126.080. Isso coloca o saldo da empresa com prejuízo não realizado de quase US$ 9,9 bilhões.
O BTC precisaria subir cerca de 18% para que a posição retorne ao ponto de equilíbrio. O preço do Bitcoin hoje não oferece suporte para isso.
As ações preferenciais explicam a urgência. A STRC é negociada perto de US$ 88,86, ainda cerca de 11% abaixo do valor de US$ 100, mesmo após o dividendo ter sido elevado para 12% em 1º de julho e a implementação de um programa autorizado de recompra.
Essa pressão sobre a STRC motivou o anúncio do Digital Credit Capital Framework em 29 de junho, que aprovou recompras e a possibilidade de vendas de Bitcoin de até US$ 1,25 bilhão.
O que observar nos próximos 30 dias?
Três eventos com datas definidas estão dentro deste período.
- A janela obrigatória de sinalização do BIP-110 deve ser aberta em agosto, o que garantirá a aprovação independentemente do apoio dos mineradores.
- A Strategy envia relatórios semanalmente. Se completar seis semanas consecutivas sem comprar, isso irá prolongar a maior pausa de sua era de acumulação.
- Com US$ 3,75 bilhões em caixa, a empresa eliminou a necessidade imediata de utilizar a autorização de monetização de Bitcoin de US$ 1,25 bilhão.
Ambas as posições podem ser mantidas ao mesmo tempo. Uma protege um protocolo concebido para durar um século, enquanto a outra precisa garantir o pagamento de dividendos no próximo trimestre. A tensão não representa contradição, mas sim uma questão de agenda, que está prestes a ficar ainda mais cheia.









