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Paraguai intervém no banco digital Ueno e presidente do Banco Central renuncia

  • O Ueno tinha 2,6 milhões de clientes, um em cada três paraguaios, e era a maior operadora de cartões do país.
  • Os depósitos do governo chegavam a 29% do total do banco, cerca de US$ 869 milhões.
  • O Banco Central garante depósitos de até 228 milhões de guaranis por pessoa e diz que o caso é isolado.
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Os reguladores do Paraguai intervieram no banco digital Ueno depois de concluírem que a instituição estava com capital abaixo do necessário. A medida levou à renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, e criou um problema político para o presidente Santiago Peña.

O Banco Central do Paraguai disse na terça-feira (3) que precisava agir rápido para proteger os depósitos e limitar o impacto no sistema financeiro. Segundo o comunicado, o índice de solvência do Ueno ficou abaixo de 50% do mínimo exigido, depois de ajustes nas demonstrações financeiras do banco. O órgão chama a medida de procedimento de resolução, com interventores que vão preservar os ativos da instituição.

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A renúncia de Carvallo

Carvallo disse que deixa o cargo, mas continua à frente do Banco Central até o fim da intervenção. Antes de chegar ao BC, ele comandou uma versão anterior do Ueno, o que alimentou críticas de que o governo Peña era próximo demais do banco e demorou a fiscalizar o crescimento rápido da instituição.

“Minha renúncia está assinada”, afirmou Carvallo em entrevista coletiva em Assunção, “pelo simples motivo de que o Banco Central do Paraguai precisa de tranquilidade para realizar seu trabalho”.

Um banco grande para o tamanho do país

O Ueno era a maior operadora de cartões de crédito do Paraguai, com quase 1,1 milhão de cartões emitidos até setembro, segundo o Banco Central. No fim do ano passado, o banco tinha 2,6 milhões de clientes, o que equivale a um em cada três paraguaios, de acordo com o site da própria instituição.

Os depósitos do governo no Ueno, que é controlado pelo conglomerado paraguaio Grupo Vázquez, dispararam desde que Peña assumiu, em 2023. Eles chegam a cerca de 5 trilhões de guaranis (US$ 869 milhões), 29% dos depósitos do banco no fim de junho.

Na manhã de terça, vídeos nas redes e nos jornais paraguaios mostravam policiais na frente das agências do Ueno e clientes em fila para sacar dinheiro ou pedir esclarecimentos. Um dos correntistas, o consultor e advogado Iván Rojas, de 32 anos, disse ter se surpreendido com a rapidez da piora.

“Ficamos sabendo dessa notícia hoje de manhã. Nunca imaginamos que a situação chegaria a esse ponto”, afirmou.

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Os sinais de alerta antes da intervenção

A crise não veio do nada. Em março, o Ueno fez a maior emissão de títulos corporativos da história do Paraguai, dizendo que os recursos financiariam oportunidades de crescimento. Nos últimos meses, esses papéis perderam valor com as notícias sobre a situação patrimonial do banco.

Os rendimentos dos títulos em dólar do Ueno com vencimento em 2031 passaram de 10% no início de novembro, sinal de preocupação crescente com o crédito do banco. Em outubro, a agência Fitch Ratings mudou de estável para negativa a perspectiva dos títulos, citando o “rápido crescimento do balanço patrimonial e o elevado volume de ativos intangíveis”.

Na semana passada, executivos do Ueno apresentaram um plano de capitalização de US$ 100 milhões para reforçar a confiança. Metade viria da controladora, a U Holdings, e a outra metade da venda de ações a investidores privados locais, segundo o banco.

O Ueno também já era alvo de uma investigação independente dos reguladores, para apurar se tinha concedido financiamento indireto para viabilizar a venda de uma carteira de ativos de uma empresa do grupo controlador. O presidente do conselho de administração, Juan Manuel Gustale, nega.

“O que o Banco Central está questionando é se houve financiamento indireto. Sustentamos que não houve”, disse em entrevista em outubro.

Ele afirmou também, na época, que as dívidas de outra empresa paraguaia, a Frigorífico Concepción, estavam provocando um efeito em cadeia sobre os títulos do banco.

O que dizem os reguladores e o mercado?

O Banco Central do Paraguai diz que o caso não reflete uma crise mais ampla. Os depósitos de até 228 milhões de guaranis por pessoa serão garantidos pela autoridade monetária, valor que o comunicado equipara a 75 salários mínimos mensais.

“Este é um caso isolado, que não representa uma situação generalizada do sistema financeiro paraguaio”, afirmou o BC em comunicado.

O mercado parece concordar. Alvaro Acosta, presidente da Investor Casa de Bolsa, a segunda maior corretora do país, descreveu o Ueno como “uma instituição com uma gestão controversa”.

“Todo o sistema financeiro já vinha alertando sobre essa situação. Por isso, os bancos estavam preparados e tinham exposição limitada à instituição”, disse.

José Brítez, vice-presidente da Associação de Bancos do Paraguai, afirmou que os bancos associados não veem sinais de retirada de depósitos em outras instituições. “A situação está restrita a um único banco”, declarou.

Os títulos soberanos do Paraguai caíram pouco. Os papéis em dólar com vencimento em 2055 recuaram quase 1 centavo por dólar e estavam entre os de pior desempenho entre os mercados emergentes na manhã de terça, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Para Manuel Ferreira, que foi ministro da Fazenda, os efeitos econômicos devem ficar limitados se o Banco Central garantir liquidez ao sistema e evitar interrupções nos pagamentos. “A reputação do Paraguai está em jogo neste momento, e tudo depende da maneira como as autoridades reagirem e das medidas que adotarem”, afirmou.

O estrago político

O maior risco pode estar na política. Peña é um aliado importante do presidente americano, Donald Trump, na América Latina, e apresenta o Paraguai como um paraíso fiscal de baixa tributação para investidores estrangeiros. Ele descartou várias vezes as preocupações sobre o balanço do Ueno e criticou a atenção da imprensa, que, segundo ele, tinha a intenção de provocar medo na população.

A senadora da oposição Yolanda Paredes pediu a abertura de um processo de impeachment contra Peña. O partido do presidente tem maioria confortável no Congresso, suficiente para barrar a iniciativa. Peña ainda não tinha se manifestado sobre a intervenção, e o Ueno não respondeu de imediato ao pedido de comentário.

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