Operação Exchange: PF mira R$ 10 bilhões lavados com cripto, desvio bancário e até contrabando de alho

  • PF cumpriu 11 mandados de prisão e 13 de busca em quatro cidades de São Paulo na sexta-feira (3).
  • Justiça determinou o sequestro de bens, valores e criptoativos dos investigados até R$ 10,4 bilhões.
  • EUA sancionaram dois brasileiros e quatro empresas do grupo dois dias antes da operação por elo com o PCC.
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A Polícia Federal deflagrou na sexta-feira (3) a Operação Exchange, contra uma organização suspeita de lavar mais de R$ 10 bilhões do tráfico internacional de drogas. Segundo a PF, o grupo usava transferências ilícitas de criptoativos, transporte de dinheiro em espécie, operações bancárias de alto valor e repasses entre pessoas físicas e jurídicas.

A Justiça Federal determinou o sequestro de bens, valores e criptoativos dos investigados até o montante de R$ 10,4 bilhões. O sequestro de bens é um bloqueio judicial que impede a venda ou a movimentação do patrimônio enquanto a investigação avança.

Mais de 50 policiais cumpriram 13 mandados de busca e apreensão e 11 mandados de prisão temporária, expedidos pela 7ª Vara Federal Criminal de São Paulo. As ordens foram executadas na capital paulista, em Santos, Praia Grande e Santana de Parnaíba. A prisão temporária é uma detenção por prazo determinado, usada para garantir a apuração dos fatos.

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Dois dos principais alvos são Victor Henrique de Oliveira Shimada, apontado como líder do esquema e considerado foragido, e sua prima Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, presa na manhã da operação. Os dois haviam sido sancionados pelos Estados Unidos dois dias antes.

Como a Operação Exchange descobriu o esquema?

A investigação nasceu fora do Brasil. Em outubro de 2023, agentes americanos apreenderam o celular de Ygor Fokin Saviolli em um controle de fronteira no aeroporto de Fort Lauderdale, na Flórida. Segundo a decisão judicial obtida pelo jornal O Globo, o aparelho continha vídeos, fotos, comprovantes de depósito e conversas que indicavam lavagem de dinheiro ligada ao narcotráfico.

O material foi analisado pelo Homeland Security Investigations, braço de investigações do Departamento de Segurança Interna dos EUA, e repassado à PF. Saviolli, apontado como líder do esquema ao lado de Shimada, foi preso pelo FBI em janeiro de 2026, em uma operação que atingiu integrantes do grupo nos Estados Unidos.

No Brasil, um laudo pericial citado na decisão aponta que a empresa Hi Quality, sem funcionários registrados, aparece em 645 comunicações ao Coaf somando R$ 29,3 bilhões. O Coaf é o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, órgão que recebe alertas de movimentações suspeitas no sistema financeiro.

Para driblar o monitoramento, o grupo usava codinomes nas conversas. Dinheiro em espécie era chamado de “vivo” ou “papel”. Dólares eram “azul”. A droga aparecia disfarçada como “iPhone”.

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Qual o papel das criptomoedas na lavagem de dinheiro?

As criptomoedas eram a ponte entre os dois países. Segundo o Tesouro dos EUA, o grupo de Shimada lavou mais de US$ 30 milhões gerados por atividades ilícitas em várias cidades americanas. Os recursos eram convertidos em cripto e enviados de volta ao Brasil.

Criptoativos são representações digitais de valor negociadas em redes blockchain. As transações são rápidas e atravessam fronteiras sem passar por bancos, o que atrai tanto investidores quanto o crime organizado.

O caso reforça uma sequência de operações da PF contra o uso de cripto em esquemas bilionários no Brasil. A tendência também aparece em relatórios internacionais, que apontam o país como alvo das maiores redes globais de lavagem com criptomoedas.

Por que os EUA sancionaram os alvos antes da operação?

Na quarta-feira (1º), o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA, conhecido como OFAC, sancionou Shimada, Stella e quatro empresas ligadas ao grupo. O OFAC é o órgão do Tesouro americano responsável por aplicar sanções financeiras. Na prática, a medida congela bens sob jurisdição dos EUA e proíbe empresas americanas de negociar com os sancionados.

As empresas atingidas são a Victory Trading, a Pixwave Soluções de Pagamentos e a Wave Construções Inteligentes, todas de São Paulo, além da Avenidas Flutuantes, sediada perto de Lisboa, em Portugal.

Foi a terceira ação do OFAC contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e seus operadores. Segundo o Tesouro, Shimada era o elo entre integrantes da facção instalados na Flórida e traficantes internacionais. A facção foi designada como organização terrorista pelo governo americano.

Segundo apuração do site Metrópoles, os mandados da Operação Exchange já haviam sido deferidos em junho. O anúncio das sanções acelerou a deflagração no Brasil.

Do desvio de R$ 206 milhões ao contrabando de alho

A investigação também liga o grupo a uma fraude eletrônica contra o programa de fidelidade KMV, do Grupo Ultra. Segundo a decisão, criminosos exploraram falhas na processadora de pagamentos e enviaram cerca de 18 mil ordens fracionadas ao Banco Votorantim. Dessas, 6.736 foram executadas, gerando desvio superior a R$ 206 milhões.

Parte expressiva do valor caiu na conta da Victory Trading, empresa de Shimada, que recebeu 2.799 transferências indevidas. O prejuízo à instituição foi de R$ 35,1 milhões. Por esse episódio, Shimada chegou a ser preso preventivamente em 2024 e solto meses depois por habeas corpus.

Outra frente era mais analógica: o comércio irregular de alho argentino. As mensagens analisadas apontam sociedade entre Shimada e Diego Lameiro Diz, fornecedor do produto vindo de Mendoza, na Argentina. Lameiro é ligado a 17 empresas de fachada, a maior parte no comércio atacadista de alimentos, de acordo com o Metrópoles. Empresas de fachada existem apenas no papel e servem para dar aparência legal a dinheiro ilícito.

A negociação do alho ocorreu dias depois de a Receita Federal apreender 25 toneladas de alho e cebola importados irregularmente em Foz do Iguaçu, segundo a decisão.

Para mover dinheiro entre o Brasil e a Europa, Shimada teria contado com o tio, Amauri Henrique de Oliveira, e com a prima Stella. Os dois fotografavam cédulas de dois reais com valor e data anotados à mão para comprovar entregas sem deixar rastro digital. Stella também coordenava remessas para Lisboa e geria planilhas financeiras do grupo.

A decisão cita ainda um suposto repasse de propina. Em áudios, o advogado Romany Cutolo Bonente teria mencionado a Shimada a necessidade de entregar R$ 100 mil a uma pessoa apelidada de “Fabio Caipira do Deic”. Para a PF, o apelido corresponde a um ex-diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais de São Paulo, afastado após ser citado em delação sobre policiais ligados ao PCC.

O que acontece com os investigados agora?

As investigações continuam. Os envolvidos podem responder por associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, entre outros crimes. Evasão de divisas é o envio ilegal de dinheiro para fora do país, sem declaração às autoridades.

A defesa de Shimada afirmou que ainda não teve acesso às decisões judiciais e que o empresário nega “veementemente qualquer envolvimento” com organização criminosa ou com lavagem de dinheiro. As defesas de outros sete investigados não foram localizadas e o espaço segue aberto a manifestações. Vale lembrar que o caso está em fase de investigação e ninguém foi condenado por esses fatos.


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