O mercado brasileiro de cripto passa pela maior reorganização de sua história, e a Crypto.com é o nome mais recente a sinalizar recuo. Desde que o novo regime de autorização do Banco Central do Brasil entrou em vigor em 2 de fevereiro de 2026, as prestadoras de serviços de ativos virtuais passaram a precisar de aval formal do regulador para operar.
As corretoras que já tinham clientes ganharam até o fim de outubro de 2026 para protocolar o pedido, sob risco de perder o direito de seguir no mercado. E as regras não são leves: capital mínimo que vai de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões, sede física própria, segregação patrimonial e controles de prevenção à lavagem de dinheiro. Na prática, essas empresas viraram um novo tipo de instituição financeira, sob supervisão contínua do BC.
A reportagem do BeInCrypto procurou a Crypto.com para um posicionamento e teve o retorno abaixo:
Recentemente, informamos aos nossos usuários no Brasil que encerraremos as contas de saldo em reais (BRL) no aplicativo da Crypto.com em 25 de outubro de 2026. A decisão está alinhada aos nossos esforços contínuos para otimizar nossas operações e nos adaptar às mudanças nas condições do mercado, tanto na região quanto globalmente. Todos os usuários afetados foram comunicados com antecedência e receberam opções para converter ou sacar eventuais saldos remanescentes em BRL antes da data de encerramento. Após essa atualização, os usuários existentes da Crypto.com no Brasil poderão continuar depositando, sacando e negociando mais de 400 criptomoedas, utilizando o cartão pré-pago Visa da Crypto.com e aproveitando todos os benefícios existentes do aplicativo sem interrupções.
Mais uma vítima da onda burocrática do Brasil?
O anúncio tem sido consolidação e uma fila de saídas. A Bitnuvem deixou o país em abril, alegando custos operacionais e o peso das exigências. A NovaDAX fechou as portas em junho, depois de uma avaliação estratégica do grupo controlador.
A Digitra.com avisou em agosto que não pediria autorização e apontou a Foxbit como porta de saída para seus cerca de 200 mil clientes. E no início de setembro foi a vez da Coinext, que tinha mais de 420 mil clientes, anunciar o fim da operação de varejo, com devolução integral dos ativos num cronograma que se estende até o fim de outubro. Foi a quarta corretora a jogar a toalha em poucos meses.
Mas o rearranjo vai além dos fechamentos. Em 1º de setembro, Bitso e Mercado Bitcoin anunciaram uma parceria estratégica na qual a Bitso deixa de atender pessoa física no Brasil e passa a direcionar esses clientes ao Mercado Bitcoin, ficando no país apenas no segmento institucional.
Juntas, as duas empresas somam cerca de 15 milhões de clientes e movimentam mais de US$ 130 bilhões por ano, no que apresentam como a maior infraestrutura de pagamentos institucionais do país. É um retrato claro de para onde o mercado caminha: presença regulatória local somada a alcance internacional, com uma divisão cada vez mais nítida entre o varejo e o institucional.
É nesse cenário que a Crypto.com comunicou aos usuários brasileiros que vai encerrar de vez sua conta de saldo em reais (BRL). Segundo a mensagem enviada aos clientes nesta terça, 15, a mudança entra em vigor em 25 de outubro de 2026 e barra novos depósitos, saques e operações com reais dentro da plataforma.
A decisão marca uma virada importante na relação da empresa com o mercado brasileiro e acende dúvidas sobre o futuro da operação local, ainda que a companhia não tenha dito, no comunicado, que pretende encerrar de vez suas atividades no país.
Até 25 de outubro, os clientes seguem usando normalmente o saldo em reais para depósitos, saques e negociações. Mesmo assim, a empresa recomenda que os usuários se antecipem à data limite. Uma das alternativas é converter o saldo em BRL direto no aplicativo para uma criptomoeda de escolha. Outra é transferir os reais para uma conta bancária brasileira já cadastrada na plataforma.
A Crypto.com também avisa que os usuários devem revisar as ordens existentes financiadas pela conta em reais. Ordens limitadas, compras recorrentes (Recurring Buy) e ordens TWAP ligadas ao Cash Account serão canceladas em 25 de outubro.
Para quem deixar dinheiro em reais na conta depois do encerramento, a empresa informa que o saldo restante será convertido automaticamente para USDC, stablecoin atrelada ao dólar, pela taxa de mercado vigente no momento da conversão. O valor cai depois na carteira de criptomoedas do usuário.
Termos para usuários brasileiros também mudaram
Além do encerramento da conta em reais, a Crypto.com informou que seus Termos e Condições para usuários do Brasil foram atualizados. Segundo a comunicação, quem continuar usando o aplicativo depois de 25 de outubro estará aceitando os novos termos. Quem não concordar com as condições atualizadas pode pedir o encerramento dos serviços da Crypto.com sem custo.
A empresa afirma, porém, que outros recursos do aplicativo continuam disponíveis. Entre eles, a possibilidade de depositar, sacar e negociar mais de 400 criptomoedas, além do uso do cartão pré-pago Visa da Crypto.com para compras e recompensas.
A decisão acontece num momento de transformação do ambiente regulatório brasileiro para empresas de ativos virtuais. O Banco Central vem montando regras específicas para as prestadoras de serviços de ativos virtuais que atuam no país, apertando as exigências de autorização, governança, controles internos, prevenção à lavagem de dinheiro e gestão de riscos.









