A Caixa Econômica Federal estuda a compra de carteiras de crédito do Banco de Brasília (BRB) — banco controlado pelo governo do Distrito Federal que acumula um rombo estimado em até R$ 5 bilhões após comprar ativos fraudulentos do Banco Master.
A negociação está em fase inicial. O interesse da Caixa é restrito: apenas carteiras originadas pelo próprio BRB, sem nenhum ativo ligado ao Master.
O que é uma carteira de crédito? É um conjunto de empréstimos que um banco tem a receber. Vendê-la significa transferir esse direito de recebimento para outra instituição, em troca de liquidez imediata — ou seja, dinheiro no caixa agora.
A operação seria uma injeção de oxigênio para o BRB reorganizar o balanço sem que a Caixa assuma os riscos do rombo contábil.
O problema
O BRB comprou carteiras de crédito do Master que somam R$ 21,9 bilhões em ativos contestados. O Banco Central apurou que parte dessas operações não tinha lastro real — os chamados “títulos podres” — e determinou uma provisão de R$ 2,6 bilhões no balanço do banco.
Provisão contábil é o reconhecimento antecipado de uma perda provável. Quando o regulador exige isso, o patrimônio do banco cai.
O patrimônio líquido do BRB estava estimado em R$ 4 bilhões no segundo trimestre de 2025. Com a provisão exigida, o banco corre o risco de descumprir as regras prudenciais do Banco Central — os limites mínimos de capital que todo banco é obrigado a manter.
A pressão pela federalização
A federalização do BRB — ou seja, sua absorção por um banco público federal como Caixa ou Banco do Brasil — circula como hipótese nos bastidores desde que a crise se agravou.
O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) pediu que a corte acompanhe o processo. O subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado alertou que a medida não é trivial: envolve transferência de ativos, passivos e responsabilidades para a União, com impacto no equilíbrio fiscal.
Pessoas com conhecimento interno do BRB avaliam que a federalização é improvável no cenário atual. Ela só ganharia força se o Banco Central colocasse o BRB sob regime especial de intervenção — o que ainda não ocorreu.
O governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), minimizou as especulações. Lideranças políticas preferem manter o banco sob controle distrital. Para o mercado financeiro, a alternativa mais bem recebida seria a privatização.
O efeito dominó
A crise do BRB tem alcance além do DF. O banco venceu licitações para operar os depósitos judiciais dos tribunais de Justiça da Bahia, Maranhão, Alagoas e Paraíba — o chamado “pix judicial”, ferramenta que agiliza a liberação de verbas determinadas pela Justiça.
Depósito judicial é o dinheiro que fica retido em banco durante processos na Justiça e só é liberado após decisão judicial.
Sem um aporte significativo, o BRB pode ter dificuldade para honrar esses compromissos. Os quatro estados têm situação fiscal delicada e não conseguiriam resolver o problema sozinhos. O rombo potencial em cofres públicos de cinco entes federativos chega a R$ 30 bilhões, segundo pessoas que acompanham de perto o caso.
Onde está a Caixa nisso?
Banco do Brasil e Caixa não analisaram formalmente os ativos do BRB. Nenhum dos dois está autorizado pela União a avaliar apoio ao banco distrital de forma oficial.
A Caixa também não participou, até agora, da compra de carteiras de crédito do BRB — estratégia que alguns bancos privados já adotaram para injetar liquidez na instituição.
A sinalização de interesse em carteiras saudáveis do BRB é o primeiro movimento concreto do banco federal na crise. Mas as tratativas ainda são iniciais, sem acordo fechado.