O status de ouro digital do Bitcoin será comprovado por quem o mantiver sob sanções, e não pelo seu gráfico de preço, segundo Gordon Grant, chefe de derivativos da Bitwise. Ele observa que estados sancionados têm acumulado Bitcoin de forma discreta, assim como o Irã já fez com ouro.
Grant discutiu a tese com Iggy Ioppe, CIO da Theo, no Conselho de Especialistas em Inteligência de Mercado do BeInCrypto. Ioppe contrapôs dizendo que o Bitcoin (BTC) não conseguiu servir como proteção de curto prazo em nenhum teste realizado neste ano. Ambos, porém, concordaram sobre a narrativa de longo prazo.
O ouro nunca foi o porto seguro que os investidores recordam
No painel de especialistas do BeInCrypto, Grant iniciou descontruindo a tradicional defesa do ouro. O metal sofreu queda durante a crise financeira de 2008. Sua tendência de alta só começou, de fato, por volta de 2010.
Em sua avaliação, uma proteção macroeconômica não é um ativo que necessariamente sobe durante uma crise. O relevante é que sua correlação com grandes ativos caia à medida em que aumentam os riscos sistêmicos. Grant denomina esse processo de descorrelação condicional. Resiliência e capacidade de proteção são mais importantes que desempenho.
Essa definição muda o debate sobre o Bitcoin. O ativo não precisa mais valorizar em meio à crise para receber o rótulo de ouro digital. É preciso que ele reduza sua conexão com ações quando o cenário se torna adverso.
O teste de descorrelação que o Bitcoin está superando discretamente
Grant afirma que esse processo pode já estar em andamento, apesar da forte relação do Bitcoin com as ações da Nasdaq nos últimos anos.
“… Micron caiu 30%. O Bitcoin não reagiu. A própria Strategy registrou forte queda e o Bitcoin está até mais valorizado em relação ao período em que a Strategy estava bem acima. Portanto, ainda não estou pronto para desistir das características de descorrelação do ouro digital associadas ao Bitcoin”, disse Gordon Grant, gestor e chefe de derivativos da Bitwise.
Os dados são recentes. A Strategy caiu recentemente para abaixo de US$ 100 pela primeira vez desde março de 2024 e realizou sua primeira venda de Bitcoin em anos. Enquanto isso, o BTC segue negociado próximo a US$ 60.347, com alta de 1,24% em 24 horas, e valor de mercado de US$ 1,21 trilhão.
É preciso analisar os números de forma transparente. A correlação de 200 dias com o S&P 500 recuou de níveis quase recordes em 2025 para próximo de zero. Movimentos parecidos ocorreram em 2015, 2018 e 2021. Logo, o gráfico sustenta a tese de Grant sem evidenciar um rompimento definitivo.
Por que as sanções são o verdadeiro teste de ouro digital do Bitcoin?
O ponto central do argumento de Grant está longe do preço. Ele observa quem são os verdadeiros acumuladores de Bitcoin.
“… Há um grupo crescente de países entre os BRICS que aparentemente mantêm alguma quantidade de Bitcoin… Irã, Rússia, Venezuela, talvez os Emirados Árabes Unidos, talvez a Arábia Saudita, é incerto… alguns países do Extremo Oriente, possivelmente China, Cazaquistão”, afirma Gordon Grant, da Bitwise.
A história traz o precedente. O comerciante turco-iraniano Reza Zarrab, preso em Miami em 2016, revelou como o Irã movimentava recursos globalmente por meio do ouro, sob sanções rigorosas dos EUA. Grant acredita que a mesma lógica esteja sendo transferida para o Bitcoin, já que o Irã trata o criptoativo como ferramenta econômica fundamental atualmente.
“… É assim que o ouro sempre foi utilizado, certo? É o recurso a que se recorre quando tudo mais falha. Mesmo com alta volatilidade de preço, é possível ter acesso, transferir, há liquidez e permite proteção”, analisa Gordon Grant, da Bitwise.
Os registros públicos de acumulação estatal não refletem essa demanda. Monitores disponíveis mostram que moedas apreendidas dominam, lideradas pela reserva de aproximadamente 328 mil BTC dos EUA. Países sob sanções não publicam dados. Sua acumulação só é percebida via mineração, onde a VanEck já identifica até 13 programas governamentais.
A Rússia transformou a teoria em política oficial
O que Grant chama de inferência tornou-se lei semanas antes do debate. A Rússia legalizou pagamentos com Bitcoin e stablecoins no comércio exterior em 1º de julho, explicitamente para contornar sanções bancárias ocidentais.
A UE reagiu em poucas semanas. Seu pacote mais recente mirou 11 plataformas de cripto ligadas à Rússia e reforçou verificações nas exchanges. Diferente de 2022, quando sanções fizeram países buscarem ouro, agora parte das transações desvia por meio do Bitcoin.
Sanções reanimaram o ouro após 12 anos de estagnação?
O precedente para a demanda impulsionada por sanções não é teórico. O ouro praticamente não se mexeu de 2011 a 2023, mesmo diante de trilhões em afrouxamento quantitativo. Ioppe argumenta que o congelamento das reservas da Rússia em fevereiro de 2022 alterou esse cenário.
Outros bancos centrais observaram e tiraram lições. Ioppe descreveu o pensamento como uma espécie de seguro “por precaução” diante de eventuais confrontos futuros.
Historicamente, esse movimento fez as compras trimestrais de ouro por bancos centrais dobrarem em relação ao ritmo da década anterior, segundo dados do World Gold Council.
Bitcoin ouro digital: o contrapeso da demanda?
Ioppe, ex-chefe de trading proprietário do Credit Suisse, não deixou a tese sem contraponto. Seu teste é mais simples e rigoroso.
“… o Bitcoin caiu quase 50%. Portanto, definitivamente não funcionou”, disse Iggy Ioppe, CIO da Theo.
Seu modelo explica por que as duas visões podem coexistir. O Bitcoin reúne um componente especulativo e um tecnológico sobre uma base monetária. A camada especulativa prevalece em momentos de crise, enquanto a base ganha força ao longo dos anos.
“… essa base resiste a perturbações de longo prazo, mas no curto prazo o aspecto especulativo predomina”, disse Iggy Ioppe, da Theo.
Como fica o debate? Grant destaca que o Bitcoin segue protegido via mercados de derivativos profundos, independentemente do preço. Ioppe segue tratando o ativo como ouro digital para fins de investimento.
O gráfico de correlação permanece ambíguo, mas agora a demanda motivada por sanções está estabelecida em lei nacional. O teste apontado por Grant não é mais apenas hipotético.









