A prata registrou sua maior reversão diária em semanas. Após subir mais de 50% desde as mínimas do início de fevereiro até alcançar US$ 96 em 2 de março, o XAG/USD devolveu mais de 14%.
A estrutura técnica que direciona o desempenho da prata desde fevereiro permanece consistente, mas três sinais que sustentavam a alta mudaram discretamente. Veja o que se alterou, o que foi mantido e o que isso indica para os próximos passos.
Padrão de cup-and-handle permanece, divergência oculta de alta se forma em suporte
O preço à vista da prata segue negociado dentro de um padrão de “cup-and-handle” em formação no gráfico diário.
A linha de pescoço do padrão está inclinada para cima e passa pela zona dos US$ 96, topo local recente. Um fechamento diário acima desse patamar aumentaria as chances de rompimento. Por ora, a alça precisa se sustentar acima de US$ 82, que foi a mínima atingida durante o dia em 3 de março.
Reforça a estrutura a formação de uma divergência autista oculta no Índice de Força Relativa (RSI), um oscilador de momentum que mede a velocidade das variações de preço. Entre 8 de janeiro e 3 de março, a prata mostra mínima mais alta, enquanto o RSI apresenta mínima mais baixa, sinalizando possível continuidade de alta no movimento, apesar da correção superficial.
O longo pavio inferior em 3 de março, que tocou US$ 82 antes de retornar a US$ 86 (no momento desta reportagem), indica atuação dos compradores do XAG defendendo essa faixa. Um fechamento abaixo de US$ 82 invalidaria, por enquanto, a divergência, mas a configuração de minimas ascendentes seguiria válida, desde que o preço se mantenha acima do nível registrado em 8 de janeiro.
O padrão mostra viés de alta. Porém, só a estrutura não movimenta o preço, e sim o capital — e agora três sinais atuam em sentido oposto.
Relação ouro-prata dispara enquanto backwardation desaparece
O índice Gold-Silver Ratio (XAUXAG), que indica a quantidade de onças de prata necessárias para comprar uma onça de ouro, rompeu a bandeira de alta que havia sido apontada como risco na análise de 21 de fevereiro. O indicador chegou próximo de 64 em 3 de março e depois recuou para cerca de 62.
Uma movimentação sustentada acima de 64 sinaliza possíveis alvos em 67 e 70, faixas em que o ouro tende a superar a prata, o que pode prolongar o desenvolvimento do padrão cup-and-handle.
Essa mudança não compromete necessariamente a estrutura técnica da prata. O ouro atua, principalmente, como reserva de valor e proteção em cenários incertos, enquanto aproximadamente 60% do consumo anual de prata está ligado à indústria. Com tensões geopolíticas, receio de guerra comercial e preocupação com recessão afetando o sentimento industrial, o capital institucional segue para o ouro pela segurança, deixando a prata sujeita à volatilidade da demanda industrial.
Além disso, a condição de backwardation nos contratos futuros de prata da COMEX (SI1!) desapareceu. Backwardation é um cenário raro no qual o preço à vista supera o dos contratos futuros, indicando prêmio pago por entrega física imediata e sinal de aperto na oferta. Em meados de fevereiro, o preço à vista da prata tinha prêmio claro de US$ 2 sobre o SI1!.
Em 3 de março, esse diferencial praticamente zerou, com preço à vista e futuro operando em torno de US$ 85 a US$ 86.
Outro ponto de alerta é que o open interest do SI1! subiu brevemente após 2 de março, mas logo estagnou e virou negativo, indicando ausência de crescimento na participação, mesmo após a prata atingir US$ 96.
Isso é relevante pois a backwardation permitiu que a prata resistisse à valorização do dólar em fevereiro. Sem esse prêmio físico e com a participação futura estável, a correlação inversa tradicional voltou a aparecer e o dólar segue em forte alta, conforme destacado em nossa análise recente sobre o petróleo.
DXY em 99 é o principal obstáculo, mas COT aponta possibilidades
O Índice do Dólar dos EUA (DXY), que acompanha a força do dólar, subiu de 97 em meados de fevereiro para acima de 99. O índice avança dentro de um canal de alta bem definido, mirando a extensão de Fibonacci de 1,618 próxima a 100,50. A reversão da prata de US$ 96 para US$ 83 ocorreu em paralelo com essa escalada. Sem a proteção da backwardation, a prata fica totalmente exposta ao movimento do dólar.
Para os compradores de prata, o ponto de atenção é o DXY recuando para a faixa de 97 a 98, base do canal de alta. Um movimento de retorno a essa região aliviaria a pressão macroeconômica e abriria espaço para conclusão da alça do padrão.
Os dados de posicionamento, contudo, trazem um motivo de otimismo para o médio prazo. O relatório Commitment of Traders (COT), divulgado semanalmente pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), aponta que Managed Money, geralmente fundos de hedge e Commodity Trading Advisors, mantinham uma posição líquida comprada de cerca de 8.500 contratos em 24 de fevereiro (última divulgação do COT). Esse volume praticamente dobrou em relação aos aproximadamente 4.500 contratos do início de fevereiro, indicando início de retomada da atuação institucional.
Mas o contexto é relevante. As posições líquidas compradas de Managed Money atingiram o pico de quase 45 mil contratos em julho de 2025 e recuaram mais de 80% desde então.
Com 8.500 contratos, os fundos de hedge praticamente acabaram de retornar. A diferença entre o posicionamento atual e os patamares de meados de 2025 representa uma grande margem para uma alta sustentada no preço da prata quando houver uma base confirmada. O interesse aberto total continua em queda (comparando com os dados de 17 de fevereiro), o que mostra que o rali até US$ 96 foi, em grande parte, resultado de recompras de posições vendidas, e não de novas aquisições institucionais. Novos compradores precisam ingressar para que a tendência de rompimento se mantenha.
Níveis e metas de preço da prata para acompanhar
Três dos quatro sinais da análise de 21 de fevereiro se enfraqueceram — backwardation desapareceu, o dólar disparou e a relação ouro-prata quebrou para cima. Apenas a estrutura técnica permanece expressivamente favorável para os compradores.
O cenário mais provável é de consolidação entre US$ 82 e US$ 90 no início e meados de março. Uma retomada acima de US$ 90 indica resolução de alta. Um fechamento diário acima entre US$ 96 e US$ 99 confirma o rompimento da formação cup-and-handle. Por isso, a faixa dos US$ 100 continua crucial, funcionando como resistência técnica (US$ 99,01) e psicológica.
Os alvos estendidos projetam movimentos para US$ 108, US$ 115 e a amplitude total entre US$ 129 e US$ 135.
Pelo lado negativo, US$ 82 é o limite para a prata. Fechamentos abaixo desse patamar invalidam a divergência imediata. Abaixo disso, US$ 71 surge como suporte estrutural — perder esse nível elimina totalmente a formação cup-and-handle.
A perspectiva positiva ganha força caso o DXY recue para a faixa de 97 a 98. Se a relação ouro-prata voltar para baixo de 60 e o backwardation reaparecer na COMEX, a possibilidade de atingir US$ 100 se mantém aberta. No entanto, o mercado exige esforço dos compradores.