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24h de tensão: o dia em que o CEO da Binance renunciou

7 mins
Atualizado por Júlia V. Kurtz

O mundo cripto tremeu durante a última semana quando descobriu-se que o então CEO da Binance, Changpeng Zhao (CZ), renunciaria ao cargo após a exchange chegar a um acordo com o Departamento de Justiça dos EUA (DoJ).

O medo era justificável, afinal, acontecimentos semelhantes levaram à queda de outras empresas cripto de renome e, como consequência, derrubaram o mercado. O caso da FTX é o mais emblemático dos exemplos.

Entretanto, qual o significado da ação regulatória e, mais importante, quais foram as consequências do acordo da Binance com a Justiça?

Eu já escuto teus sinais

A incredulidade da política dos EUA com o mercado cripto já é antiga e antecede os eventos que marcaram o inverno cripto. Políticas como a senadora Elizabeth Warren (Dem – Massachussets), por exemplo, lutam por um maior controle do governo sobre o mercado cripto.

A insistência do Legislativo daquele país em aumentar o escrutínio na indústria fez com que vários players grandes começassem a ter dúvidas sobre a viabilidade de manter operações nos EUA.

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Não à toa, a sede de várias exchanges que operam nos EUA não fica no país. Um exemplo é a FTX, cujo QG ficava nas Bahamas. Também é por isso que essas empresas mantêm entidades separadas para operar em território americano – como a FTX.US e a Binance.US.

Agências reguladoras do país também insistem em avançar sobre o setor. O caso mais conhecido é o da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) e seu processo contra a Ripple (XRP).

O órgão afirmava que o token XRP era um título não registrado e acionou a Ripple na justiça por isso. Depois de três anos, o tribunal decidiu que a criptomoeda não pode ser considerada um título se vendida diretamente ao público em exchanges.

EUA vs. Binance: o preâmbulo

O primeiro indício retórico de que a narrativa dos políticos americanos era correta surgiu em 2022, com a queda da Terra Luna. O evento acentuou uma queda já forte dos mercados de criptomoedas, dando início à parte mais intensa do inverno cripto.

Passado mais de um ano desde o evento, até hoje a justiça dos EUA busca processar o fundador da Terraform Labs, Do Kwon. No momento, ele aguarda extradição em Montenegro após ser condenado naquele país por uso de passaportes falsos.

Mas essa é uma história que merece ser contada em outro momento.

A queda da Terraform Labs gerou abalos sísmicos que derrubaram outras empresas cripto, a mais notável delas sendo a Three Arrows Capital (3AC). Saber desses eventos é importante porque eles são a fundação da insegurança de investidores, que exigiram o pagamento de empréstimos concedidos à Alameda Research, fato que explodiu o escândalo da FTX.

O colapso da exchange criada por Sam Bankman-Fried é significativa por uma série de motivos. Em primeiro lugar, porque revelou práticas de má gestão que, até agora, não se sabe se estão disseminadas em outras empresas do setor.

Em segundo lugar, porque SBF era rival de Changpeng Zhao, que, embora negue, teve participação fundamental nos instantes iniciais da bola de neve que soterrou a FTX em novembro de 2022.

Um ano depois, Bankman-Fried está preso e condenado. E as garras da justiça parecem ter finalmente alcançado a Binance.

Os primeiros indícios

Bankman-Fried foi preso em sua mansão nas Bahamas e extraditado aos EUA após o colapso da FTX. Após esse evento, mais notícias começariam a surgir mostrando um interesse cada vez maior daquele país em fiscalizar a indústria cripto.

Em março de 2023, A Commodities Futures Trading Comission dos EUA (CFTC) processou a Binance, a Binance.US e Changpeng Zhao. As acusações envolviam supostas violações das regras de derivativos e de negociação.

Além disso, pairava a suspeita de que a Binance.US fosse uma empresa de fachada que não operava de forma independente. Nesse caso, seria o próprio CZ quem controlava suas operações. Também se acreditava que os fundos de clientes da Binance.US fossem misturados aos da matriz.

A SEC também avançou contra a exchange, processando tanto ela quanto a rival Coinbase em junho. As acusações eram semelhantes às usadas contra a Ripple: negociação de títulos não registrados.

Em retrospectiva, a tempestade perfeita se formava sobre a Binance.

Vem aí o temporal

Novembro de 2023 foi um mês que começou marcado com dois eventos importantes: o aniversário da falência da FTX e a condenação de seu cofundador e ex-CEO, Sam Bankman-Fried.

E SBF, que se banhara nos holofotes pelo que parece ser a última vez em um bom tempo, mais uma vez teria sua luz ofuscada por CZ.

Na tarde de segunda-feira (20), surgiu a informação de que a Binance havia firmado um acordo com o CFTC. Ele incluía o pagamento de uma multa de US$ 4 bilhões ao DoJ para encerrar processos por suspeitas de lavagem de dinheiro, fraude e violação de sanções.

Esses casos envolviam, especificamente, o uso da exchange para financiamento de grupos terroristas e de clientes na Rússia, o que foi sancionado após o início do conflito com a Ucrânia em 2022. Além disso, surgiram os primeiros rumores de que o acordo envolvia a renúncia de CZ.

Dawn of the First Day

Os dominós começaram a cair na manhã do dia seguinte, com a informação de que o DoJ faria uma operação de fiscalização cripto ao longo da tarde. Ao meio dia, surgiu a confirmação de que o alvo da operação era a Binance.

Os rumores da renúncia de CZ, naquele momento, estavam mais fortes do que nunca. A pressão continuou escalonando até que, às 17h36 daquele dia, o próprio Zhao confirmou a informação no Twitter (X):

“Hoje, eu deixei o cargo de CEO da Binance. Certamente, não foi fácil de largar emocionalmente. Mas eu sei que é a coisa certa a fazer. Eu cometi erros e eu preciso assumir as responsabilidades. Isso é o melhor para nossa comunidade, para a Binance e para mim”.

Há um motivo pelo qual é preciso mencionar a FTX para contar a história da Binance. Em novembro de 2022, as finanças da Alameda Research já estavam estouradas ao ponto de comprometer a exchange de Sam Bankman-Fried.

O paralelo ocorre porque fatídico novembro, o que finalmente destruiu a FTX foi uma corrida aos bancos de usuários, que tentaram sacar seus fundos da exchange sem saber que eles não estavam mais lá.

Um ano depois, o fantasma daquele evento reapareceu e clientes da Binance, com medo de que a mesma coisa acontecesse, correram à exchange para sacar seus fundos antes que fosse tarde demais.

O medo de uma nova FTX

Dados da empresa de análise blockchain Nansen, divulgados duas horas antes da renúncia oficial demonstraram que mais de US$ 45 milhões foram retirados da Binance em uma hora.

Novos dados, divulgados 3 horas após a declaração de CZ, revelaram que mais de US$ 1 bilhão foram retirados da exchange desde então, apenas na rede  Ethereum. A própria Nansen, aliás, informou que a Binance já enfrentou saídas deste volume antes, sem grandes consequências.

Doze horas depois, uma atualização da Nansen revelou que a Binance perdeu holdings de vários tokens importantes, como BTC, USDT e USDC.  Curiosamente, a quantidade de BNB, ETH, SOL, SHIB e MATIC em custódia da exchange aumentou.

“Nós não vemos um êxodo em massa de fundos”, disse a Nansen. Pelo visto, o pior cenário fora evitado.

É difícil dizer o quanto a Binance e CZ se prepararam para a divulgação da saída do agora ex-CEO. É fato que um evento dessa magnitude chacoalharia o mercado cripto, ou seja, é preciso levar suas consequências a sério.

Mais que uma despedida emocional, o texto de Zhao foi preparado com cuidado para garantir que clientes da Binance entendessem alguns pontos muito importantes:

  • A indicação de seu substituto, Richard Teng, aponta que tudo estava sob controle dentro da exchange. Não havia um incêndio a ser apagado dentro da empresa;
  • CZ é explícito ao apontar que nenhuma das acusações contra a exchange envolve uso ilícito de fundos de clientes. Isso é importante porque garante que a exchange teria como suportar todas as saídas de fundos que se seguiram ao anúncio.

E agora?

A sobrevivência da Binance é uma boa notícia para o mercado cripto, que passa por seu primeiro momento de bonança desde o inverno cripto. Analistas, inclusive, apontam que a exchange tem fôlego para pagar a multa de US$ 4 bilhões sem vender suas reservas de criptomoedas.

Já CZ terá alguns problemas a mais. Como parte do acordo para livrar a Binance de um processo mais grave, ele não só precisou renunciar do cargo como se declarar culpado de crimes de lavagem de dinheiro.

O ex-CEO, que não é um cidadão americano, pagou uma fiança de US$ 175 milhões para responder ao processo em liberdade. Ele agora luta para poder deixar os EUA antes do julgamento. Se condenado, ele pode pegar até 18 meses de prisão.

Já o novo CEO, Richard Teng, precisa enfrentar desafios como o êxodo de clientes da exchange. Além disso, a Binance precisa sair completamente do mercado americano.

E o BNB, hein?

O BNB, token nativo do ecossistema da Binance, teve sua própria jornada de altos e baixos durante a semana.

A criptomoeda, surpreendentemente, reagiu de forma positiva na segunda-feira (20), com o anúncio da multa. Ela era negociada a US$ 246,16 antes da divulgação da notícia e subiu para uma máxima de US$ 266,86 no fim do dia.

A sequência de eventos do dia 21, por outro lado, negou todos os ganhos do BNB e mais um pouco. A moeda despencou 10%, caindo para US$ 227,95 durante a noite.

O token ensaiou uma leve recuperação em seguida e, desde então, gira em torno da marca de US$ 230. Quando este texto foi concluído, o BNB valia US$ 234,26. Os dados são do CoinGecko.

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Júlia V. Kurtz
Editora-chefe do BeInCrypto Brasil. Jornalista de dados com formação pelo Knight Center for Journalism in the Americas da Universidade do Texas, possui 10 anos de experiência na cobertura de tecnologia pela Globo e, agora, está se aventurando pelo mundo cripto. Tem passagens na Gazeta do Povo e no Portal UOL.
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