Durante anos, o mercado cripto foi definido por ciclos de euforia, quedas abruptas e promessas exageradas. Mas algo mudou. Ao analisar atentamente pesquisas e teses recentes do rumo do nosso mercado, me chamou atenção os highlights da da a16z crypto (o braço especializado em cripto da Andreessen Horowitz) uma das gestoras de venture capital mais influentes do mundo que publicou no X e em seu blog, deixou claro que 2026 não será sobre “o próximo hype”.
Será sobre maturidade, consolidação e expansão além dos entusiastas da tecnologia.
Cripto está deixando de ser um mercado isolado para se tornar a infraestrutura invisível para todo o sistema: do dinheiro, da informação, da coordenação econômica e da própria internet. Abaixo, organizo 18 tendências macro que apontam para esse novo estágio, explicadas de forma didática, conectadas entre si e já refletidas em movimentos concretos de grandes players do mercado.
1. Stablecoins operam em escala de sistema financeiro
Stablecoins: criptomoedas pareadas a moedas fiduciárias como o dólar, euro, yene e real movimentaram cerca de US$ 46 trilhões em volume anual, superando PayPal e se aproximando de redes como Visa e Mater Card. Isso muda tudo: stablecoins não são mais experimento, são trilho financeiro global.
2. On/offramps são o elo que faltava
O gargalo não é mais enviar dinheiro on-chain (isso já é rápido e barato), mas conectar stablecoins ao cotidiano: Pix, cartões, QR codes, moedas locais. Uma nova geração de startups no mundo inteiro estão resolvendo exatamente isso; e abrindo caminho para a adoção em massa.
3. Pagamentos globais, em tempo real e sem fronteiras
Com on/offramps maduros, surgem novos comportamentos: salários pagos instantaneamente entre países, comércios aceitando dólares digitais sem conta bancária, apps liquidando valor em segundos. Stablecoins deixam de ser nicho e viram camada de liquidação da internet.
4. Tokenização de ativos precisa ser cripto-nativa
A tokenização tradicional falhou quando tentou apenas “copiar” ativos do mundo off-chain para a blockchain. O futuro está em perguntar: o que só pode existir porque existe blockchain? Programabilidade, liquidação instantânea e composabilidade são o verdadeiro diferencial.
5. Perpificação como alternativa à tokenização clássica
Contratos perpétuos (perps) são derivativos cripto-nativos altamente líquidos. Em muitos casos, “perpificar” ativos — inclusive ações de mercados emergentes — pode ser mais eficiente do que tokenizar o ativo spot tradicional.
6. Originação on-chain, não só tokenização
Tokenizar dívida originada off-chain traz ganhos limitados. O verdadeiro salto vem da originação on-chain, que reduz custos, amplia acesso e automatiza processos — mesmo que traga desafios de compliance e padronização, já em endereçamento.
Sponsored Sponsored7. Stablecoins como atalho para modernizar bancos
Grande parte do sistema bancário ainda roda em tecnologias legadas (COBOL, mainframes). Stablecoins permitem inovação sem reescrever o core, funcionando como um “update de software” paralelo para barncos e fintechs.
8. Quando a internet vira o banco
Com agentes de IA executando tarefas autonomamente, o dinheiro precisa fluir como dados. Pagamentos deixam de ser uma etapa separada e passam a ser comportamento de rede, liquidados automaticamente entre softwares e agentes.
9. Wealth management deixa de ser privilégio
Ativos tokenizados, DeFi e IA permitem gestão patrimonial ativa para todos: rebalanceamento automático, acesso a crédito privado, pré-IPO e rendimento on-chain. O foco muda de “preservar” para acumular riqueza.
10. De KYC para KYA: conheça seu agente
A economia digital já tem mais identidades não-humanas (bots, agentes, serviços) do que humanas. Know Your Agent (KYA) será essencial para permitir que agentes transacionem com identidade, limites e responsabilidade claras.
Sponsored11. IA para pesquisa profunda — com coordenação econômica
Modelos de IA já auxiliam pesquisas complexas. Para isso escalar, será necessário atribuir e remunerar contribuições entre agentes e modelos — um problema onde o cripto entra como camada de coordenação e registro verificável.
12. O imposto invisível sobre a web aberta
Agentes consomem conteúdo sem remunerar quem o produz, drenando o modelo econômico da internet. A solução passa por micropagamentos, atribuição em tempo real e fluxos automáticos de valor, potencializados por blockchain.
13. Privacidade vira o maior moat do cripto
Performance virou commodity. Privacidade, não. Blockchains com privacidade criam lock-in, efeitos de rede e dinâmicas winner-take-most. Não é feature, é infraestrutura essencial.
14. Mensageria descentralizada e ownership de dados
Mesmo apps criptografados dependem de servidores centrais. O futuro aponta para protocolos abertos, sem ponto único de falha, onde usuários possuem suas mensagens e identidades, independentemente do app.
Sponsored Sponsored15. “Secrets-as-a-service” como infraestrutura
Dados sensíveis exigem garantias criptográficas reais, não “confiança”. Infraestruturas de controle de acesso, criptografia client-side e gestão descentralizada de chaves tornam privacidade parte do core da internet.
16. De “code is law” para “spec is law”
Hacks mostram que auditorias não bastam. A segurança evolui para propriedades de design: invariantes formais, guardrails em runtime e uso de IA para verificação contínua. Sistemas passam a impedir classes inteiras de ataque.
17. Trading é meio, não destino
Muitas empresas cripto correram para virar plataformas de trading. Mas valor durável vem de produto, utilidade e infraestrutura, não apenas de volume especulativo.
Extra: O caso Coinbase: a tese em ação
Em dezembro de 2025, a Coinbase deixou claro: não é mais apenas uma exchange. Ao integrar ações, ETFs, perps, mercados de previsão, tokenização institucional e stablecoins customizadas, tudo liquidado on-chain (Base) e mediado por USDC. A empresa materializa a tese central deste artigo: a convergência entre finanças tradicionais, cripto e economia da informação.
Conclusão: 2026 é o ano em que o cripto desaparece, e vence.
O futuro do cripto não é barulhento. É silencioso, integrado e inevitável. Quando a tecnologia some da superfície e passa a sustentar comportamentos cotidianos, ela venceu.
Em 2026, a tecnologia cripto e blockchain não será mais um “setor”.
Será a infraestrutura sobre a qual setores inteiros vão operar.
E isso é, talvez, o sinal mais claro de maturidade que uma tecnologia pode dar.