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Renda fixa digital e stablecoins: dois caminhos para o crédito sem banco

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Escrito e editado por
Lucas Espindola

23 fevereiro 2026 17:00 BRT
  • Em 2025, captações individuais via RFD chegaram a R$ 885 milhões, sinal claro de entrada institucional no mercado.
  • A Brex se tornou o primeiro cartão corporativo global a aceitar stablecoins como pagamento de fatura.
  • A falta de portabilidade e mercado secundário é o principal gargalo para o crescimento institucional da RFD.
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O mercado de Renda Fixa Digital (RFD) ainda carrega a reputação de fenômeno varejista. Operações pequenas, ticket reduzido, plataformas digitais, base ampla de investidores. Essa leitura não está errada. Está incompleta diz Beny Fard.

Os dados do Relatório Renda Fixa Digital 2026 mostram outra coisa. Em 2025, houve captações individuais que chegaram a R$ 885 milhões. Esse número não combina com narrativa de mercado embrionário. Combina com institucionalização em curso.

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O varejo sustenta o volume, o institucional muda a lógica

Em 2025, 45,8% das operações ficaram abaixo de R$ 500 mil. A maioria seguiu o regime da RCVM 88, com vencimentos de até 12 meses e taxas prefixadas. O perfil é claro: investidor pessoa física que quer crédito fora do banco, prazo curto e retorno potencialmente maior.

O institucional entrou por outra porta. Fundos e gestoras profissionais não se movem por narrativa tecnológica. Eles exigem governança documentada, enquadramento jurídico defensável e controles de risco compatíveis com seus mandatos. Quando encontraram isso na RFD, alocaram. Não em quantidade de operações, mas em volume.

À medida que o prazo das operações se estende, a indexação muda. Taxas prefixadas cedem espaço ao CDI e, em alguns casos, ao IPCA. Não é coincidência. Mandatos institucionais raramente assumem exposição longa a juro fixo sem convicção sólida sobre o cenário macro. O CDI resolve isso: oferece previsibilidade e facilita a comparação com outros ativos da carteira.

O movimento que aconteceu nos Estados Unidos

Enquanto o Brasil consolida sua camada de crédito digital, o mercado global percorre caminho distinto. Em setembro de 2025, a fintech americana Brex, plataforma de gestão financeira corporativa usada por mais de 35 mil empresas, anunciou a integração nativa de pagamentos em stablecoin, criptomoeda atrelada ao dólar com paridade de 1 para 1, projetada para eliminar a volatilidade típica de outros ativos digitais.

A Brex se tornou o primeiro cartão corporativo global a aceitar stablecoins como pagamento de fatura. Começando pela USDC, emitida pela Circle, os clientes passaram a poder receber, enviar e pagar faturas em stablecoin, com conversão automática para dólar, sem taxas e com liquidação em segundos.

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Pedro Franceschi, CEO da Brex, foi direto ao explicar a decisão: “As stablecoins tornam possível movimentar milhões de dólares através das fronteiras em segundos, mas utilizá-las normalmente exige fluxos de trabalho fragmentados e o gerenciamento de múltiplas plataformas”.

O movimento não foi isolado. Veio no contexto do Genius Act, primeira lei federal americana a criar um arcabouço regulatório para criptomoedas. Visa, Stripe e PayPal anunciaram iniciativas semelhantes no mesmo período. A Capital One posteriormente adquiriu a Brex por US$ 5,15 bilhões, incorporando a capacidade de ativos digitais ao portfólio do banco.

A diferença que importa

A analogia entre RFD e stablecoins tem limite preciso. Os dois modelos partem do mesmo diagnóstico: o sistema bancário tradicional é lento, caro e fragmentado. As soluções, porém, são estruturalmente distintas.

Na RFD, o investidor assume risco de crédito do emissor em troca de rentabilidade. Há lastro, devedor, obrigação jurídica e regulação de valores mobiliários. A infraestrutura digital reduz fricção, mas o ativo é uma relação de crédito.

Na stablecoin, a lógica é outra. O ativo é meio de pagamento, não instrumento de financiamento. Quem usa busca velocidade de transferência e estabilidade de valor. Enquanto outras empresas lançaram cartões de débito com stablecoin, a Brex se posicionou como a primeira a oferecer um cartão de crédito que aceita stablecoin como pagamento, o que preserva para o cliente o ciclo de conciliação mensal da fatura.

O que os dois modelos compartilham é o resultado prático: menos banco no meio do caminho.

O gargalo que ainda trava a RFD

A principal limitação do mercado é estrutural. A regulação vigente veda portabilidade de ativos entre plataformas e não existe mercado secundário organizado nos moldes tradicionais. Na prática, quem compra um título em geral precisa carregá-lo até o vencimento.

Para o investidor de varejo, isso é tolerável. Para o institucional, é problema. Fundos profissionais precisam de liquidez. Sem ela, o universo de compradores potenciais se estreita, e o custo de capital da emissão sobe.

O debate regulatório sobre negociação subsequente, portabilidade e mecanismos agregadores de liquidez não é periférico. É o ponto central do próximo ciclo de crescimento da RFD. À medida que esse arcabouço avança, a diligência se torna mais padronizável e a alocação institucional tende a crescer.

Dois mercados, o mesmo movimento

O que os dados de 2025 mostram, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, é convergência de diagnóstico com divergência de solução.

No Brasil, a RFD constrói uma camada de crédito privado acessível, com governança crescente e apetite institucional emergente. Nos Estados Unidos, as stablecoins atacam o problema dos pagamentos transfronteiriços, onde os bancos cobram caro e demoram dias para liquidar o que poderia ser resolvido em segundos.

A assimetria entre quantidade e volume na RFD não é ruído. É característica de mercados em transição. O varejo sustenta a base e gera recorrência. O institucional valida a estrutura e altera a escala. Quando os dois convivem no mesmo ecossistema, o mercado parou de ser experimento.

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