Os preços do petróleo bruto estão sendo negociados próximos de US$ 92 no momento desta reportagem. Embora ainda estejam bem acima dos níveis anteriores ao conflito, caíram 31% em relação ao pico do ciclo em US$ 119 registrado em 8 de março. Esta análise acompanha os contratos futuros do Brent, pois eles refletem com mais precisão o valor internacional do petróleo em eventos geopolíticos com foco no Oriente Médio.
A alta impulsionada pela guerra levou o petróleo aos patamares mais elevados desde 2022, mas quatro sinais atualmente indicam que o potencial de subida pode estar próximo do limite. Além disso, o Irã divulgou recentemente uma lista de exigências para um cessar-fogo, o que pode reduzir ainda mais o prêmio de risco de guerra.
Liberação recorde de reservas e aumento das exportações do Irã desafiam o pânico de oferta
A Agência Internacional de Energia (IEA) autorizou nesta semana a liberação emergencial de 400 milhões de barris das reservas de petróleo, a maior da história, com o objetivo de estabilizar os preços.
O Japão, que possui cerca de 440 milhões de barris em estoques que cobrem 204 dias de importação, também pode recorrer a essas reservas de forma independente.
Enquanto isso, as exportações de petróleo do Irã aumentaram em 100 mil barris por dia desde o início da guerra, atingindo 2,1 milhões de barris diários. A China continua absorvendo volumes expressivos.
O tráfego pelo Estreito de Hormuz está sendo retomado gradualmente, com 13,7 milhões de barris transportados desde o fim de fevereiro, embora grande parte da navegação comercial continue bloqueada em razão de ameaças de mísseis e drones. No entanto, apesar desses riscos de oferta, o próprio comportamento dos preços indica outro cenário.
No gráfico de 8 horas, o Índice de Força Relativa (RSI), indicador de momento, aponta uma divergência de baixa. Os preços do petróleo chegaram a topos mais altos entre 3 e 10 de março, porém o RSI formou um topo mais baixo.
Quando os valores sobem, mas o momento enfraquece, geralmente há indicação de possível reversão adiante. Essa divergência também aparece dentro de uma estrutura maior de baixa formada no gráfico, abordada na parte final deste texto.
Urgência por entrega de petróleo diminui
Esse enfraquecimento do momento é confirmado pela curva futura, que avalia como os meses de entrega estão precificados entre si.
A diferença entre contratos Brent de primeiro e segundo mês (BRN1! menos BRN2!) chegou ao pico de US$ 9,38 em cerca de 8 de março. Quando esse spread está positivo, significa que os compradores pagam mais pela entrega imediata do petróleo em relação ao mês seguinte, situação chamada backwardation, sinalizando pânico na oferta.
Após esse topo, o spread caiu cerca de 76% para US$ 3,09. Ainda há alguma preocupação, mas a queda rápida indica que a busca por barris imediatos vem diminuindo rapidamente.
Contribuindo para esse quadro, o número total de contratos futuros ativos do Brent caiu para cerca de 455 mil em relação a mais de 771 mil no momento desta reportagem.
Alta de preços com redução da participação costuma indicar que o movimento de valorização está sendo alimentado pelo fechamento de posições de venda antigas e não por entrada de novos compradores, padrão que geralmente perde força com rapidez.
Porém, o mercado de opções sinaliza maior cautela. O prêmio pago por apostas bullish no petróleo em relação a operações de venda atingiu o ponto mais alto em quatro anos, superando os níveis verificados durante a crise Rússia-Ucrânia em 2022.
Esse descompasso entre a cautela nas futuras e o aumento das proteções via opções indica que participantes ainda se preparam para um possível fechamento do Hormuz, mesmo com o esfriamento do restante do mercado.
Canal de alta do dólar sustenta preços do petróleo por enquanto, mas traz risco de reversão
A menor convicção futura está diretamente ligada ao cenário macroeconômico, onde o dólar dos EUA adiciona outro elemento de complexidade.
O Índice Dólar dos EUA (DXY), que acompanha a força do dólar em relação a uma cesta de principais moedas, está negociado próximo de 99,23 dentro de um canal de alta. A resistência em US$ 99,68 foi testada e rejeitada duas vezes, em 3 e 8 de março.
Normalmente, um dólar mais forte prejudica o petróleo, pois a commodity é cotada em dólar mundialmente, tornando-se mais cara para outras economias. Contudo, diante de crises de oferta como a atual, o cenário se inverte.
A valorização do petróleo faz com que países importadores tenham que comprar mais dólares para efetuar o pagamento, impulsionando a moeda norte-americana juntamente com o petróleo, ao invés de atuar como fatores opostos.
Essa correlação movida pelo petrodólar só permanece enquanto o prêmio de guerra estiver vigente. Caso a desescalada avance, como Donald Trump já sugeriu, tanto o petróleo quanto o dólar podem corrigir simultaneamente.
Um rompimento do DXY acima de US$ 100 indicaria que o mercado acredita em inflação persistente, puxada pelo petróleo, e menos cortes nas taxas do Federal Reserve em 2024. Esse cenário favorece o petróleo por um curto período, mas depois pressiona a demanda global, tornando-se um obstáculo para o setor.
Padrão de baixa projeta US$ 55 para o preço do petróleo
A perda de força, a redução da backwardation, diminuição no volume de negociações e um dólar prestes a deixar de ser fator de suporte criam, no gráfico de 8 horas, um padrão de cabeça e ombros.
A cabeça está em US$ 119, enquanto o ombro direito se desenvolve na faixa de US$ 93 a US$ 95. A linha do pescoço, suporte entre os mínimos dos ombros, coincide com a região dos US$ 78.
Um rompimento confirmado abaixo de US$ 78 validaria o padrão técnico. Com isso, o caminho do petróleo ficaria aberto para US$ 73 e depois US$ 67, sendo que o objetivo do movimento pode chegar a US$ 55, o que corresponde a uma queda de aproximadamente 31% a partir do suporte.
No cenário de alta, um avanço acima de US$ 93 a US$ 95 enfraquece a configuração baixista. Um movimento sustentado acima de US$ 105 anularia completamente o padrão.
No entanto, um novo teste dos US$ 119 é pouco provável, considerando os sinais de desescalada e o enfraquecimento estrutural em backwardation, momento e participação já mencionados. Esse cenário fica ainda mais distante diante das condições de cessar-fogo apresentadas pelo Irã.
Esse avanço só ocorreria se as relações entre EUA e Irã piorassem drasticamente.
A linha de US$ 78 e o topo do ombro direito, em US$ 95, delimitam a faixa de negociação. Um rompimento definido em qualquer direção vai determinar o próximo movimento do preço do petróleo.