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Por que nenhum especialista recomendaria bots de negociação de IA?

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Escrito e editado por
Lucas Espindola

17 março 2026 08:00 BRT
  • Haseeb Qureshi, da Dragonfly Capital, afirma que risco de responsabilidade impede laboratórios de IA de ponta de treinar modelos para negociação de cripto.
  • Empresas quantitativas como a Jane Street podem replicar qualquer estratégia de modelo público em grande escala e eliminar rapidamente a vantagem dos investidores de varejo.
  • Agentes de IA não têm habilidades ou ideias únicas para ganhar de forma independente, restando o crime como única vantagem comparativa.
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Nenhuma grande empresa de Inteligência Artificial endossou bots de negociação em cripto. Nenhum laboratório de ponta está treinando modelos para isso. Mesmo assim, um número crescente de operadores utiliza o Claude, da Anthropic, para criar bots automatizados para o Polymarket, afirmando lucros de milhões. Tópicos virais sugerem que qualquer pessoa pode fazer o mesmo.

No entanto, os investidores que mais chamam atenção utilizam estratégias que qualquer fundo quantitativo poderia replicar da noite para o dia.

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Três suposições, nenhuma garantia

A discussão se apoia em três premissas: as gigantes de tecnologia eventualmente desenvolverão modelos próprios para negociação; operadores individuais podem manter uma vantagem frente às instituições; agentes autônomos de IA conseguem gerar lucro consistente em mercados abertos.

Haseeb Qureshi, sócio-gerente da Dragonfly Capital, discorda dos três pontos. Em entrevista ao Bankless, ele citou riscos de responsabilidade jurídica, a estrutura de mercado e a natureza commoditizada da inteligência artificial. Segundo ele, esses fatores tornam essa corrida do ouro bem menos promissora do que sugerem as aparências.

A armadilha da responsabilidade

Qureshi afirma que criar IA para tarefas envolvendo blockchain é, tecnicamente, simples. Um simulador EVM consegue testar empréstimos em loop ou trocas de tokens com facilidade. Os modelos são capazes; apenas não foram direcionados para o universo cripto.

A razão é mais institucional do que tecnológica. Primeiro, o setor cripto carrega consigo uma reputação que as empresas de IA preferem evitar. “Cripto é meio constrangedor”, afirmou Qureshi.

O verdadeiro obstáculo, no entanto, é a responsabilidade jurídica. Imagine um bot do Claude errando uma operação alavancada e provocando um prejuízo de US$ 2 milhões. Ou enviando, por engano, US$ 10 mil para um endereço descartável. Nenhum aviso legal seria suficiente para conter a reação negativa.

“… Vai acontecer em 100% dos casos”, disse Qureshi. “Qualquer pessoa que tenha uma experiência ruim, isso vai viralizar muito.”

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Ele comparou administrar a carteira cripto de um usuário a injetar peptídeos chineses não regulamentados. O prejuízo supera qualquer potencial de receita. Orientações de código mal elaboradas são constrangedoras; uma carteira esvaziada pode resultar em processo judicial.

A Anthropic já divulgou pesquisas envolvendo IA e blockchain. Seu estudo SCONE-bench avaliou como modelos avançados exploram vulnerabilidades em contratos inteligentes. Contudo, trata-se de pesquisa em segurança cibernética, não do lançamento de um novo produto.

O ponto de inflexão virá pela concorrência. Quando um laboratório entender que o volume em cripto é estratégico demais para abrir mão a rivais, o treinamento começará. Até lá, o silêncio predomina.

O problema Jane Street

Mesmo sem o apoio das big techs, a narrativa sobre negociação enfrenta um obstáculo estrutural. Toda estratégia baseada em um modelo acessível publicamente também pode ser utilizada por qualquer um — inclusive empresas quantitativas institucionais.

O argumento de Qureshi é direto: se um bot de negociação básico do Claude consegue identificar negociações lucrativas no Polymarket, a Jane Street pode operar com cinco mil deles ao mesmo tempo. Ela dispõe de estrutura mais ágil e mais recursos. O grupo é capaz de eliminar rapidamente qualquer rentabilidade antes do varejista até acessar o sistema. “Se está presente no modelo cru, a Jane Street já está explorando”, afirmou.

A única forma de um bot de negociação varejista obter ganhos seria com sinais inéditos ausentes no modelo base. Uma instância do Claude integrada a uma API não se enquadra nesse caso.

Por que “vá ganhar dinheiro” não funciona?

Qureshi ampliou a análise para além da negociação, abordando o conceito de agentes autônomos de IA que geram renda sozinhos.

A primeira alternativa seria “ser contratado”, permitindo que o agente de IA venda seu trabalho. Mas isso seria economicamente inviável, já que milhões de instâncias idênticas do Claude existem. Nenhuma apresenta habilidade única ou diferencial de localização. Contratar um agente de IA equivale a adquirir poder computacional da Anthropic com etapas extras. Nenhum comprador racional pagaria valor superior ao preço da própria API da Anthropic pelo mesmo resultado.

A segunda possibilidade seria criar uma empresa. Parece mais atrativo, porém, segundo Qureshi, falha por um motivo mais sutil: todos os agentes de IA acessam o mesmo conjunto de dados de treinamento. O resultado é a convergência em planos e ideias genéricos. Ao pedir sugestões de negócios a dez instâncias do Claude, surgem dez versões similares da mesma proposta.

Qureshi afirmou que o empreendedorismo autêntico, como descreve Peter Thiel, exige “segredos conquistados”. São conhecimentos derivados de experiências específicas em contextos e momentos determinados. O Bankless consolidou sua marca porque seus fundadores reuniram expertise em cripto, habilidade narrativa e senso de comunidade em um período oportuno. Um Claude recém-inicializado não vivenciou nada disso. Falta-lhe os chamados segredos conquistados.

Isso leva a uma conclusão desconfortável: agentes de IA não superam humanos em negociações. Não conseguem empregos. Tampouco criam ideias originais de negócios. Assim, onde estaria seu verdadeiro diferencial? A resposta dada por Qureshi foi propositalmente provocativa: o crime. Não é um cenário que ele deseja, mas é onde a lógica conduz ao se eliminar todos os limitadores institucionais.

O que isso significa?

Os operadores que desenvolvem bots de negociações para o Polymarket existem. Alguns resultados positivos podem ser reais, ao menos por ora. No entanto, empresas quantitativas institucionais vão capturar rapidamente qualquer vantagem presente nos modelos públicos. As big techs só treinarão modelos com foco em cripto diante da pressão competitiva. Já a economia de agentes autônomos pode encontrar seu primeiro modelo viável fora do alcance das autoridades legais.

Para o operador comum, que lê manchetes sobre bots de IA faturando milhões, o recado é implícito: a casa sempre vence. No universo de negociação por IA, a casa opera com cinco mil bots e latência de submilissegundos.

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