Os mercados de previsões já movimentaram mais de US$ 154 bilhões em volume total, com negociações diárias no Polymarket frequentemente superando US$ 300 milhões.
Essa escala levanta uma questão mais relevante. Essas plataformas não se parecem mais com espaços de apostas segmentados. Elas cada vez mais assumem características de operações de negociação voltadas ao investidor pessoa física.
Esta análise utiliza dados on-chain, principalmente da Polymarket—principal plataforma em número de usuários e transações em um mercado dominado pelo duopólio Polymarket–Kalshi—para examinar diretamente essa transformação.
Negociações de US$ 10 definem o mercado
Em quatro dimensões—quem participa, como se comporta, como o capital circula e em que escala—o padrão de crescimento do volume revela um cenário consistente.
A divisão de categorias também reforça essa abordagem: temas como cripto e política (com exceção do segmento esportivo) agora lideram em volume semanal na Polymarket, enquanto economia e resultados corporativos acompanham esse avanço. Essas áreas não pertencem ao universo tradicional de apostas. Elas se aproximam mais do contexto financeiro.
Em paralelo, contratos de eventos esportivos já são oferecidos como produtos financeiros regulados pela CFTC pela Kalshi e distribuídos no Hub de Previsões da Robinhood, posicionando-os ao lado de ações, opções e cripto em uma única interface de corretora.
O dado mais revelador não é o valor movimentado nos mercados de previsão, mas sim o perfil de quem realiza essas operações.
No Polymarket, o valor mediano das apostas é de US$ 10, conforme painel exclusivo do BeInCrypto. A média fica em US$ 89, influenciada pelo pequeno grupo de participantes de maior volume.
A distribuição demonstra um quadro mais preciso: cerca de 20% das carteiras operam entre US$ 0 e US$ 10, outras 27% variam de US$ 10 a US$ 50, e aproximadamente 11% estão na faixa entre US$ 50 e US$ 100.
No total, mais de 57% dos usuários negociam valores inferiores a US$ 100, enquanto mais de 80% movimentam até US$ 500.
O mercado, portanto, não é dominado por grandes operadores. Ele se sustenta em pessoas físicas operando valores reduzidos. O comportamento repete o movimento que marcou a ascensão da negociação de ações por investidores individuais.
Para efeito de comparação, a Robinhood registrou valor mediano de conta de US$ 240 e média de cerca de US$ 5 mil, de acordo com Vlad Tenev, CEO, em 2021. A semelhança estrutural é evidente: os mercados de previsões trazem o mesmo perfil de pessoa física que reformulou o mercado de ações nos últimos cinco anos.
Usuários agem como traders, não como apostadores
Apenas o volume de participantes não diferencia uma plataforma financeira de uma de apostas. A frequência de interação, sim.
O apostador faz um lance e aguarda. O operador entra em posições, ajusta, encerra e retoma exposições. A razão de transações por usuário ativo evidencia essa diferença diretamente.
Na Polymarket, a média atual é de aproximadamente 25 transações diárias por usuário ativo. Isso significa que, na média, cada participante realiza 25 negociações por dia. No início de 2026, o número chegou a se aproximar de 37.
Para contextualizar, durante a maior parte de 2025, essa taxa ficou entre 3 e 5. O salto estrutural observado a partir do final daquele ano revela uma mudança de comportamento: os usuários passaram a gerir posições ativamente em múltiplos mercados, e não apenas fazer previsões pontuais.
Esse padrão encontra paralelo direto nos mercados de cripto. Um relatório da Kaiko sobre a Binance revelou que a exchange processou 61,9 milhões de ordens frente a US$ 20 bilhões em volume spot em um único dia em dezembro de 2025, indicando negociações médias baixas e execução frequente entre 300 milhões de contas cadastradas.
Negociações de alta frequência e pequeno volume são a marca do investidor pessoa física, seja qual for o ativo negociado: ação, token ou contrato de previsão.
O capital está em constante movimento
Se os usuários agem como negociadores, a dinâmica do capital deve confirmar isso. Confirma. A Polymarket mantém atualmente valor total bloqueado em torno de US$ 445 milhões, enquanto o interesse em aberto está aproximadamente em US$ 477 milhões.
A proximidade entre esses dois números traz uma conclusão específica: praticamente todo o capital depositado está aplicado em posições ativas e não parado. Não se trata de liquidez passiva, e sim de capital em operação.
A relação entre o volume e o interesse em aberto reforça essa análise. Com volume diário de ordens por volta de US$ 339 milhões e interesse em aberto em US$ 477 milhões, a proporção é 0,71. O capital não apenas está alocado, mas circula.
Posições são abertas, encerradas e retomadas frequentemente, indicador de uma gestão contínua de portfólio, não apenas exposições dependentes de eventos. Caso o índice vol-OI fosse mais baixo, caracterizaria atividade semelhante a apostas.
No mercado tradicional de apostas, o capital costuma ser travado até a apuração do resultado. Aqui, ele circula. Essa diferença é relevante, pois mostra um sistema no qual os participantes usam o capital para ajustar riscos continuamente, e não para aplicar apenas em um resultado pontual.
Crescimento já não é mais impulsionado por eventos
Os padrões de comportamento e de fluxo de capital citados seriam expressivos mesmo com volumes modestos. Entretanto, os volumes registrados não são modestos.
O volume nominal semanal do Polymarket ultrapassou consistentemente US$ 1 bilhão ao longo do primeiro trimestre de 2026, com semanas recentes chegando a US$ 2,5 bilhões. A média móvel de 7 semanas já superou US$ 2 bilhões.
Os volumes mensais aumentaram de cerca de US$ 1 bilhão em meados de 2025 para mais de US$ 8 bilhões em março de 2026. O crescimento não se deve a apenas um ciclo de eventos.
O volume se diversifica por categorias: esportes, cripto e política. Cada segmento contribuiu de forma considerável nos dados semanais recentes, enquanto economia, clima e cultura ampliaram ainda mais a abrangência.
Essa diversificação diferencia um crescimento estrutural de picos temporários causados por eventos. Uma eleição presidencial, por exemplo, gera alta passageira.
O avanço consistente dos volumes em múltiplas categorias como esportes, cripto, macroeconomia e cultura sinaliza uma base de usuários que interage com mercados de previsão regularmente, não apenas em momentos pontuais, conforme o perfil do investidor varejista.
O que dizem os dados dos mercados de previsão?
Cada fator reforça o outro em uma sequência de causalidade. A maioria dos participantes possui perfil de pequeno porte, típico do investidor pessoa física. Esses investidores negociam repetidamente, realizando dezenas de transações por sessão.
O capital movimentado por eles permanece quase totalmente em atividade, migrando entre operações ao invés de ficar parado. Esse padrão já ocorre com volumes mensais bilionários em categorias cada vez mais amplas.
Quando pequenos investidores lideram a participação, fazem operações frequentes e mantêm capital girando em escala, o sistema passa a se assemelhar ao mercado financeiro varejista, e não a uma plataforma de apostas.
Os mercados de previsão deixam de ser apenas mecanismos para antecipar resultados. Tornam-se sistemas de negociação para eventos concretos, espaços onde usuários manifestam opiniões, gerenciam riscos e alocam recursos com disciplina e frequência semelhantes ao mercado de ações.