À medida que as tensões geopolíticas aumentam, o dólar americano (US$), há muito considerado o porto seguro padrão do mercado, não está respondendo como fez historicamente.
Enquanto isso, ouro (XAU) e prata (XAG) emitem sinais que vão muito além de um rali típico de commodities.
SponsoredOuro atinge recordes enquanto prata dispara, mas mercados buscam proteção contra algo maior que a inflação
O capital está migrando de maneira decisiva para ativos tangíveis, levando o ouro à marca dos US$ 5 mil e a prata acima de US$ 80, patamares que forçam investidores a reavaliar antigas premissas macroeconômicas.
O analista de ações de ouro Garrett Goggin destacou a anomalia e explicou que em escaladas militares anteriores dos EUA o dólar quase sempre se fortalecia, já que investidores buscavam segurança. Desta vez, ocorreu o contrário.
“… O US$ costumava disparar quando as bombas caíam. Agora, não mais”, afirmou Goggin, indicando um recuo expressivo do dólar mesmo com o avanço do ouro e da prata.
De fato, enquanto ouro e prata registraram God Candles hoje (12), o índice do dólar americano despencou, caindo para 98,53 no momento desta reportagem. A divergência aponta para um ceticismo crescente em relação ao papel do dólar como proteção geopolítica.
O atual movimento de preços é histórico. O economista e defensor de longa data dos metais preciosos Peter Schiff ressaltou que o ouro superou US$ 4.560 pela primeira vez, posicionando-se mais próximo de US$ 5 mil do que de US$ 4 mil.
A prata, por sua vez, saltou acima de US$ 84, apresentando um dos desempenhos relativos mais fortes em décadas. A alta simultânea dos dois metais é incomum e, geralmente, ocorre em momentos de forte tensão monetária ou estresse sistêmico.
Analistas afirmam que o avanço da prata não é impulsionado apenas por especulação. Dario, cofundador e COO da Synnax, destacou que a prata entrou em contango — quando preços futuros superam os do mercado à vista — sinalizando possível entrada de grandes compradores corporativos e industriais.
Segundo Dario, esse comportamento sugere que empresas estão se protegendo contra escassez de oferta e custos crescentes. Isso indica demanda da economia real, não apenas excesso especulativo de curto prazo.
Por que a alta do ouro e da prata parece uma reprecificação adiada
O movimento também reacendeu debates antigos sobre supressão de preços no mercado de metais preciosos. Kip Herriage argumenta que ouro e prata foram artificialmente controlados por anos, citando a multa de manipulação aplicada ao JPMorgan em 2020 como um divisor de águas.
Após esse caso, explica Herriage, os preços atingiram o fundo e o real processo de formação de preços começou. Dessa perspectiva, os níveis atuais não representam uma bolha, mas uma recomposição tardia de valores.
Sponsored“… Na verdade, ouro e prata deveriam estar nos valores atuais há 10 anos”, afirmou ele.
Ainda sobre a estrutura do mercado, Herriage cita uma convergência de fatores políticos e monetários. Ele sugere que uma cesta composta por ouro, prata e Bitcoin pode vir a lastrear parcialmente futuros títulos americanos de longo prazo. Esse movimento alteraria a dinâmica da dívida soberana e aumentaria estruturalmente a demanda por ativos escassos.
Embora especulativa, a proposta reflete uma busca mais ampla por credibilidade diante do aumento da dívida e queda de confiança nos modelos fiduciários.
Investidores veteranos concordam que a tendência está longe do fim. Robert Kiyosaki projetou a prata acima de US$ 80 no final de 2026 e declarou que continuará adquirindo até US$ 100, enquanto alertou sobre alavancagem imprudente.
De acordo com o autor renomado, não se trata de uma operação de curto prazo, mas de uma mudança geracional na forma como o mercado enxerga confiança, escassez e risco monetário.
No conjunto, o rompimento do ouro e da prata — e a resposta tímida do dólar — sugerem que o mercado pode estar migrando silenciosamente para um novo regime, em que as antigas regras dos portos seguros já não valem.