A proposta do Banco da Inglaterra de limitar as reservas em stablecoins enfrenta crescente oposição dentro do setor de cripto. Fundadores britânicos, CEOs globais e políticos alertam que essas restrições podem comprometer pagamentos, bloquear a expansão de negócios e provocar a saída de talentos do país.
A proposta, apresentada em um documento de consulta em novembro de 2025, prevê limites temporários de £20 mil por pessoa física e £10 milhões por empresa nas reservas de stablecoins sistêmicas lastreadas em libra. Nenhuma outra jurisdição relevante sugeriu restrições semelhantes.
Por que o Banco da Inglaterra quer um limite?
O banco central elaborou os limites como medida transitória para evitar a saída massiva de depósitos. Segundo autoridades, caso grandes stablecoins em libra sejam lançadas sem restrição, clientes poderiam transferir rapidamente suas economias de bancos tradicionais para ativos digitais.
Essa movimentação pode desestabilizar a oferta de crédito numa economia em que bancos respondem por cerca de 85% do financiamento ao consumidor.
A proposta também exige que os emissores de stablecoins sistêmicas mantenham 40% das reservas em contas não remuneradas junto ao Banco da Inglaterra, medida que pode reduzir de forma expressiva a receita dos emissores, já que normalmente eles recebem juros sobre títulos do Tesouro de curto prazo.
Adriana Ennab, diretora do Stand With Crypto no Reino Unido, explicou o raciocínio do Banco durante participação no BeInCrypto Expert Council.
“… O Banco da Inglaterra está avaliando um limite de £20 mil para pessoas físicas e £10 milhões para empresas durante o período de transição, como forma de proteger a estabilidade financeira e evitar grandes saídas de recursos”, disse Adriana.
Por que fundadores dizem que não vai funcionar?
O Stand With Crypto promoveu encontros com desenvolvedores em todo o Reino Unido ao longo de vários meses. O retorno foi consistente: remessas internacionais, transações de cadeia de suprimentos e folhas de pagamento atingiriam rapidamente os limites, principalmente para empresas de porte médio que movimentam valores acima de £10 milhões, mas não se equiparam a grandes corporações.
“… Disseram que os negócios se tornariam inviáveis. Pagamentos e transferências seriam limitados — e, para muitas empresas, £10 milhões não seria suficiente. Alguns fundadores relataram já ter migrado para a Ilha de Man, enquanto outros afirmaram que, se começassem hoje, optariam por desenvolver em outro país”, explicou Adriana.
A questão da aplicabilidade acrescenta outro desafio. Wallets de auto custódia funcionam fora das plataformas centralizadas, o que dificulta tecnicamente o monitoramento ou a imposição de limites pelos reguladores.
Durante o Expert Council da BeInCrypto, Ennab comparou a iniciativa a uma visão estruturalmente equivocada da tecnologia.
Freddie New, diretor da Bitcoin Policy UK, trouxe outro ponto relevante. As reservas das stablecoins geralmente investem em títulos públicos, fazendo dos emissores grandes compradores de dívidas do governo britânico.
Ele citou o caso dos Estados Unidos, onde a Tether se tornou uma das maiores detentoras de dívida americana, superando vários países soberanos.
Restringir o crescimento das stablecoins pode diminuir a demanda por títulos públicos em um momento em que governos buscam compradores.
“… É muito difícil explicar ao Banco da Inglaterra que ter um comprador garantido da dívida pública não é necessariamente um fator negativo”, afirmou Freddie New ao Conselho.
A reação negativa ganha dimensão global
As críticas vão além dos fundadores locais. O CEO da Coinbase, Brian Armstrong, classificou os limites como obstáculos à inovação que podem impedir o Reino Unido de competir globalmente.
No mesmo sentido, Nigel Farage classificou a proposta como um “veneno” para o setor financeiro britânico. Já Stani Kulechov, fundadora da Aave, alertou que a combinação entre limites e exigências de reservas tornaria o Reino Unido o país menos atraente para emissoras de stablecoins.
O próprio Stand With Crypto apurou que, à medida que o mercado de stablecoins dos EUA alcançou US$ 300 bilhões, os depósitos bancários também aumentaram.
Os dados indicam que as stablecoins funcionam como reserva de valor adicional, e não como substitutas de depósitos tradicionais, o que enfraquece o principal argumento do Banco da Inglaterra.
A pressão política também cresce. O abaixo-assinado do Stand With Crypto contra os limites atingiu 84.276 assinaturas antes do encerramento em 3 de março.
A Câmara dos Lordes abriu sua própria investigação sobre stablecoins no final de janeiro, enviando correspondência a todos os signatários e solicitando evidências.
O Reform Party, liderado por Farage, prometeu reduzir o imposto sobre ganhos de capital em cripto para 10% fixos, aumentando a pressão eleitoral para que o Partido Trabalhista apresente alguma resposta.
O que acontece a seguir?
A vice-governadora do Banco da Inglaterra, Sarah Breeden, afirmou à Câmara dos Lordes em março que o banco central está “genuinamente aberto a outras formas” de gerenciar os riscos.
Ela reconheceu dificuldades técnicas para fiscalizar os limites de posse e levantou dúvidas sobre o custo-benefício de criar sistemas de monitoramento para restrições temporárias.
Espera-se que uma versão revisada das regras seja divulgada em junho, com regulamentação definitiva prevista até o fim do ano. Já o regime amplo do Reino Unido para criptoativos não deve entrar em vigor antes de outubro de 2027.
Enquanto a União Europeia avança com seu 28º regime para registro empresarial transfronteiriço simplificado e os Estados Unidos já aplicam a GENIUS Act e impulsionam a aprovação da CLARITY Act, fundadores britânicos avaliam que a janela para competitividade regulatória está se fechando rapidamente.
Existe mão de obra qualificada. O desafio é saber se a regulamentação chegará a tempo de manter esse talento no país.