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Bitcoin cai 7% em guerras: lições do Iraque e Ucrânia

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Escrito e editado por
Lucas Espindola

01 abril 2026 09:10 BRT
  • Durante a guerra do Iraque em 2003, ações subiram após o início da invasão, com a redução da incerteza.
  • Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, as ações ficaram voláteis mas se recuperaram rapidamente.
  • Se tropas terrestres dos EUA entrarem no Irã e agravarem o conflito, o bitcoin pode seguir três cenários.
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O Bitcoin reage e mercados já estão se movimentando ao aumento do risco geopolítico. Vários insiders do Polymarket que acertaram apostas sobre a data de início da guerra no Irã agora investem fortemente na possibilidade de tropas dos EUA em solo iraniano.

Investidores agora levantam uma dúvida mais incisiva: o que ocorre com os mercados financeiros se o conflito no Irã evoluir para um cenário semelhante ao do Iraque em 2003? O histórico fornece parâmetros, mas não apresenta respostas simples.

Como os mercados financeiros reagiram à guerra do Iraque em 2003?

Pesquisas sobre a invasão do Iraque em 2003 revelam que as ações dos EUA já refletiam grande parte do temor antes do início formal da guerra.

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Ou seja, os mercados operavam com um evidente “desconto de guerra”, pois investidores se preocupavam com a gravidade do conflito.

Quando a invasão começou e os piores receios não se concretizaram de imediato, esse desconto começou a ser revertido.

No período analisado, o S&P 500 subiu cerca de 3,8% a 4%, enquanto o preço do petróleo recuou aproximadamente entre US$ 6,5 e US$ 7. Esse comportamento indica que o mercado reagiu menos à guerra em si e mais ao fato de a incerteza começar a se dissipar.

Como o S&P 500 reagiu à invasão dos EUA no Iraque em 2003. Fonte: MarketWatch
Como o S&P 500 reagiu à invasão dos EUA no Iraque em 2003. Fonte: MarketWatch

A mesma pesquisa constatou ainda que um índice de referência de títulos do Tesouro, considerado livre de risco, caiu cerca de 40 pontos-base conforme aumentaram as chances de guerra.

Isso favoreceu as ações, pois taxas menores costumam valorizar os ativos. Contudo, demonstrou que investidores ainda buscavam segurança.

O desempenho setorial também seguiu um padrão. Empresas de energia e defesa costumam ser beneficiadas inicialmente durante ameaças de guerra, diante da perspectiva de maiores lucros com petróleo e aumento nos gastos militares.

Já setores como o financeiro e o de tecnologia tendem a ser mais dependentes das variações dos rendimentos e das expectativas de crescimento.

Rússia e Ucrânia apresentaram cenário macro diferente em 2022

A reação do mercado em 2022 foi bem diferente. No dia em que a Rússia enviou tropas terrestres para a Ucrânia, as ações dos EUA oscilaram intensamente, mas fecharam o pregão em alta.

O S&P 500 avançou cerca de 1,5%, enquanto o Nasdaq teve alta de 3,3%, evidenciando como os mercados podem se recuperar rapidamente quando a expectativa negativa atinge patamares extremos.

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Ao mesmo tempo, o rendimento do Treasury de dez anos nos EUA recuou cerca de 3 pontos-base, para algo em torno de 1,97%. Isso indica busca por segurança nos títulos e aumento das preocupações com o crescimento.

O Bitcoin teve comportamento distinto. Sofreu forte queda no choque inicial, atingindo o menor patamar em um mês e recuando aproximadamente 7% em meio à cobertura sobre a invasão.

Esse movimento é relevante porque mostrou o Bitcoin sendo negociado como um ativo de risco, e não como proteção, durante o auge das incertezas.

Dados sobre fluxos de fundos de cripto daquela época também evidenciam volatilidade expressiva, impulsionada pelo cenário de guerra, nos produtos ligados a ativos digitais.

Preço do Bitcoin caiu de forma acentuada durante o primeiro ano da guerra entre Rússia e Ucrânia. Fonte: CoinGecko
Preço do Bitcoin caiu de forma acentuada durante o primeiro ano da guerra entre Rússia e Ucrânia. Fonte: CoinGecko

O que esses episódios indicam sobre o “War Beta” do Bitcoin?

Esses dois episódios indicam uma conclusão importante. O Bitcoin geralmente não atua como o ouro na primeira fase de um grande choque de guerra.

No lugar disso, tende a se comportar como um ativo de alto risco, especialmente durante as primeiras 24 a 72 horas, quando as manchetes guiam o mercado.

Já as ações podem apresentar recuperação mais rápida mesmo em contexto de guerra. Isso foi observado em 2003, quando a incerteza começou a diminuir, e novamente em 2022, diante de vendas extremas no início do conflito.

Esse cenário cria uma perspectiva instável para o Bitcoin. Caso o conflito seja percebido como prolongado, o petróleo pode se manter elevado, os temores com a inflação aumentarem, os rendimentos dos Treasuries subirem e a liquidez ser restringida. Todos esses fatores costumam ser negativos para ativos especulativos como o Bitcoin.

Se o mercado entender que a crise será breve e contida, o Bitcoin pode cair inicialmente e, em seguida, ensaiar recuperação com um rali de alívio.

Entretanto, mesmo nesse cenário, a retomada dependeria de um fator: a estabilidade dos rendimentos e das condições financeiras mais amplas.

O principal fator: rendimentos, não manchetes de guerra

O maior impacto não decorre da guerra em si, mas das consequências dela sobre inflação e taxas de juros.

Uma invasão terrestre provavelmente:

  • Eleva os preços do petróleo
  • Aumenta as expectativas de inflação
  • Pressiona os rendimentos para cima
  • Adia ou cancela cortes de juros pelo Fed

Essa combinação restringe a liquidez nos mercados.

E o Bitcoin é bastante sensível à liquidez.

O que acontece agora? Três cenários

Se os EUA entrarem no Irã, a reação do Bitcoin depende da forma como o mercado interpreta o evento.

1. Conflito curto e controlado: o Bitcoin cai em um primeiro momento, depois se estabiliza ou se recupera à medida que a incerteza diminui.

2. Guerra terrestre prolongada: a moeda enfrenta pressão de baixa contínua, pois os rendimentos permanecem elevados e a liquidez, restrita.

3. Escalada total: há maior possibilidade de uma queda mais significativa, impulsionada pelo risco inflacionário persistente e uma postura global de aversão ao risco.

Resumo

O Bitcoin não reage à guerra da maneira que muitos acreditam.

O ativo reage a liquidez, taxas e pressão macroeconômica. Se uma invasão terrestre elevar os rendimentos e adiar medidas de flexibilização, o cenário de curto prazo para as criptos segue negativo.

No momento desta reportagem, o sinal é claro: o risco de escalada está aumentando e o Bitcoin se valoriza em sintonia com esse contexto.

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