À medida que o setor de cripto entra em uma fase mais madura, a atenção do mercado migra de narrativas amplas para setores com aplicações concretas e catalisadores identificáveis. Nesse contexto, o SportFi, especialmente os Fan Tokens, tornou-se um segmento voltado ao consumidor, conectando eventos do mundo real, o engajamento global de fãs e os mercados on-chain. Este artigo analisa como os Fan Tokens evoluíram, porque apresentam dinâmicas singulares e de que forma desenvolvimentos recentes da indústria e novos catalisadores podem posicioná-los para um ciclo expressivo em 2026.
Da adoção de cripto ao SportFi: principais desenvolvimentos até 2025
O mercado de cripto deixou de ser um experimento de varejo, de nicho e alta volatilidade, para se consolidar como uma classe de ativos mais institucionalizada e regulada, com expansão global. Nos anos iniciais (2009–2019), o uso era predominantemente especulativo, impulsionado pelo surgimento do Bitcoin como sistema peer-to-peer e, posteriormente, pela ascensão de altcoins como o Ethereum. A adoção era restrita, a volatilidade extrema, e a participação concentrada em investidores pioneiros com pequenas fatias do mercado.
Desde 2020, uma série de fatores acelerou a aceitação da cripto pelo mercado tradicional. A ampliação do DeFi e dos NFTs comprovou novas utilizações on-chain, enquanto a entrada de ativos digitais nos balanços de empresas e a maior participação do varejo trouxeram maior liquidez. Mais recentemente, a aprovação dos ETFs à vista de Bitcoin nos EUA, o crescimento acelerado das stablecoins como ferramentas de pagamento e liquidação e marcos regulatórios mais definidos, como o MiCA na União Europeia, facilitaram o acesso para investidores institucionais e convencionais. Esses movimentos indicam uma integração da cripto ao sistema financeiro global, indo além da mera especulação.
Em 2025, a capitalização total do segmento de cripto superou os US$ 4 trilhões pela primeira vez, representando um aumento de cerca de 21 vezes em relação aos US$ 190 bilhões de 2020. Dados da a16zcrypto também mostram alta contínua da atividade entre usuários, com carteiras móveis de cripto atingindo recordes e incremento anual de 20%. Estima-se que haja entre 40 e 70 milhões de usuários ativos de cripto globalmente, aproximadamente 10 milhões a mais que no ano anterior, frente a uma estimativa de 716 milhões de pessoas titulares de cripto, número que cresceu 16% em relação ao ano precedente.
Fonte: a16zcrypto.
SponsoredNo universo mais amplo das criptos, diferentes setores avançaram juntos com a popularização do mercado, como redes Layer 1, stablecoins, DeFi, GameFi e, mais recentemente, o SportFi, com os Fan Tokens se consolidando como principal aplicação do segmento, com maior adoção.
Lançados inicialmente em 2019 por grandes clubes de futebol, como Juventus e Paris Saint-Germain, o segmento evoluiu de um nicho experimental para um mercado estruturado, já adotado por cerca de 100 organizações esportivas de futebol, eSports, automobilismo e lutas. Os clubes utilizam Fan Tokens como camada digital para engajamento e monetização, proporcionando a investidores o acesso a votações de governança, recompensas e experiências exclusivas, enquanto garantem receitas recorrentes e maior conexão com fãs ao redor do mundo.
Em termos de adoção, os Fan Tokens desempenham papel semelhante ao da GameFi no início da década: servem como porta de entrada para quem ainda não está exposto ao universo cripto. Os esportes, especialmente o futebol, que reúne mais de 3 bilhões de fãs segundo estimativas, funcionam como ambiente de aproximação à tecnologia, graças à força cultural e popularidade global. Com a adoção de cripto crescendo tanto via grandes instituições quanto por soluções próximas ao consumidor, os Fan Tokens se destacam como um dos segmentos mais promissores do setor cripto para o público final, ao combinar marcas reconhecidas, utilidade prática e grande potencial de alcance.
Principais características dos fan tokens
Os Fan Tokens apresentam dinâmicas próprias em relação à maioria dos ativos do setor. Suas cotações são fortemente influenciadas por eventos esportivos relevantes e pelo engajamento dos torcedores, podendo se descolar do movimento do Bitcoin e dos ciclos de mercado mais amplos. Nessas ocasiões, o desempenho e as expectativas em torno do clube acabam influenciando mais do que o sentimento de mercado geral.
Essa característica se explica por sua estrutura de base: cada Fan Token está associado a uma franquia esportiva do mundo real, com histórico consolidado de operação e ampla base de fãs internacional. Dessa forma, os Fan Tokens representam uma exposição orientada a eventos, que pode contribuir para diversificação frente às narrativas tradicionais do mercado cripto.
Esse efeito orientado por eventos pode ser comprovado na prática. Durante a campanha do Tottenham na Europa League 2025, por exemplo, o aumento nas expectativas após a vitória nas quartas de final fez o $SPURS disparar, se distanciando do mercado cripto mais amplo, com alta de 83% ante 13% do $BTC. Situação semelhante aconteceu com o Paris Saint-Germain na Champions League de 2025, quando a ida à semifinal fez $PSG subir 40% contra 17% do $BTC, mostrando influência do sentimento esportivo no desempenho.
Fonte: TradingView
Outro exemplo recente é a sequência de dez vitórias do Arsenal na Premier League e na Champions League, entre o fim de setembro e meados de novembro. Depois da queda das criptos em outubro, o $AFC se descolou dos índices do mercado, subindo mais de 30% desde o patamar mais baixo registrado em 11 de outubro. No mesmo intervalo, o $CHZ teve alta de cerca de 19%, enquanto $TOTAL3 e $BTC recuaram 2,4% e 7,6%, respectivamente. O desempenho em campo do Arsenal foi o principal fator para a variação do preço do $AFC no período.
Fonte: TradingView.
Esses exemplos evidenciam uma característica central dos Fan Tokens: seus preços são determinados pelo desempenho esportivo e pelas expectativas dos torcedores, e não apenas pelas condições do mercado cripto. Embora fatores macroeconômicos ainda influenciem a cotação, resultados em campo, dinâmica e expectativas dos fãs podem provocar períodos de descorrelação e descoberta independente de preços.
Conforme aumenta a confiança em um clube, os Fan Tokens surgem como uma ferramenta para expressar opiniões sobre o desempenho futuro, funcionando de maneira similar a mercados de previsão contínuos e líquidos. Diferente das apostas tradicionais, as posições podem ser ajustadas em tempo real, o que permite a investidores aumentar ou reduzir a exposição conforme o sentimento do mercado evolui.
Essa dinâmica acompanha o crescimento expressivo dos mercados de previsão on-chain, onde cada vez mais usuários especulam sobre desfechos do mundo real, incluindo esportes. Após ganharem destaque no ciclo eleitoral dos EUA em 2024, plataformas como Polymarket e Kalshi seguem expandindo, com os volumes negociados aumentando quase 5 vezes desde o início de 2025 e se aproximando dos picos anteriores.
Sponsored SponsoredFonte: a16zcrypto.
Com esse comportamento indo além das eleições, a expectativa é de reforço na demanda e liquidez dos Fan Tokens, que também reagem em tempo real a mudanças de desempenho, projeções e sentimento coletivo.
Papel da Chiliz na evolução do SportFi
Evoluções recentes mostram que os Fan Tokens estão avançando para uma nova fase de expansão, com a Chiliz ampliando a infraestrutura, adequação regulatória e integrações no mundo real para sustentar a adoção em larga escala até 2026.
Em dezembro de 2025, a chiliz chain viabilizou o lançamento da Decentral, o primeiro protocolo RWA dedicado ao financiamento de direitos de mídia do futebol. A iniciativa representa um avanço concreto nas finanças esportivas on-chain, ao solucionar um problema real de liquidez enfrentado por clubes ao permitir que recebíveis de transmissões e patrocínios sejam financiados por meio de mercados descentralizados. O movimento acompanha a tendência do setor de tokenizar ativos do mundo real, uma pauta destacada por a16z, BlackRock e órgãos reguladores, com o mercado de RWA já atingindo cerca de US$ 30 bilhões, volume quase 4 vezes superior ao visto nos últimos dois anos.
Fonte: a16zcrypto.
Ao mesmo tempo, a Chiliz vem construindo as bases institucionais e regulatórias para essa evolução. Em 2025, a Socios Europe Services se tornou a primeira plataforma focada em esportes autorizada no âmbito do MiCA da União Europeia, permitindo o acesso regulado a Fan Tokens em todos os 27 países do bloco e criando uma porta de entrada para a tokenização de ativos esportivos futuros. Parcerias estratégicas, como a colaboração com a Assetera, fortalecem ainda mais o caminho ao possibilitar RWAs esportivos totalmente regulamentados, incluindo títulos atrelados à receita e outros produtos estruturados.
Em conjunto, esses movimentos mostram que a Chiliz não apenas acompanha tendências do setor, como tokenização e RWAs, mas atua diretamente na formação de um ecossistema regulado de SportFi que conecta engajamento de fãs, economia esportiva real e finanças on-chain.
Fan Tokens rumo a 2026
A perspectiva para 2026 aponta a Copa do Mundo da FIFA como importante propulsora dos Fan Tokens, ampliando os recentes avanços. Com o início do torneio previsto para junho de 2026, o Google Trends já registra elevação no interesse global por um evento que mobilizou cerca de 5 bilhões de pessoas em 2022.
Fonte: Google Trends. Termo de busca: “world cup 2026”, últimos 12 meses.
Com o aumento da atenção, a expectativa é que a atividade migre para ambientes especulativos como casas de apostas tradicionais, mercados de previsão on-chain e, consequentemente, para os Fan Tokens, que oferecem meios líquidos e imediatos para expressar projeções sobre o desempenho de seleções.
Há alguns meses, analisamos a exposição ao tema SportFi por meio de um Fan Token Index, estruturado para oferecer diversificação sem depender de um único clube. O índice destinou 50% para o CHZ como principal representante do ecossistema, enquanto os outros 50% foram igualmente distribuídos entre fan tokens de futebol de times com desempenho recente relevante ou grandes catalisadores esperados, incluindo ARG, PSG, BAR, NAP, GAL e JUV.
Do final de julho até hoje, o Fan Token Index registrou uma queda de 32%, desempenho só ligeiramente inferior ao do BTC, que caiu de −25,4%, ainda que haja diferença expressiva em maturidade e liquidez. Destaca-se que o índice apresentou volatilidade menor em comparação à maioria de seus componentes, com volatilidade anualizada de 12,7% frente a 8,3% do BTC. Os fan tokens individuais tiveram quedas entre −22,7% e −52%, com volatilidades variando de 9,4% a 35%. Esses dados ressaltam o benefício da diversificação ao adotar uma abordagem indexada.
Fonte: TradingView (dados de preço), análise do autor (construção de portfólio). Dados de 19 de dezembro de 2025.
Com uma capitalização total de mercado próxima de US$ 240 milhões, os fan tokens seguem como um segmento reduzido da cripto em comparação ao mercado cripto avaliado em cerca de US$ 3 trilhões e a categorias como a GameFi, atualmente estimada em aproximadamente US$ 6,1 bilhões. Essa distância revela margem para crescimento, especialmente considerando a resiliência relativa do setor diante de recentes desafios no mercado, como o evento de liquidação de outubro. Assim, os fan tokens podem compor uma parte complementar em portfólios de cripto diversificados.
Olhando para 2026, um Fan Token Index diversificado tende a ser mais atraente do que apostar em apenas um ativo. O mercado mostra mais maturidade em relação a ciclos anteriores, e a Copa do Mundo de 2026 deve se consolidar como catalisador especulativo relevante. Evidências de 2022 apontam que os fan tokens normalmente se valorizam nos meses anteriores ao torneio, por conta da expectativa, mas apresentam desempenho menor após o início dos jogos, reflexo do movimento “compre o boato, venda o fato”. Isso sugere assimetria de potencial pré-evento, reforçando também a necessidade de gestão ativa na exposição conforme a data se aproxima.
Conclusão
Os fan tokens estão na interseção entre esporte, finanças e mercados on-chain, oferecendo exposição estruturalmente diversa da maioria dos ativos cripto. Com um mercado ainda reduzido, melhora da infraestrutura, regulação mais clara e grandes eventos esportivos globais no horizonte, há cenário favorável para maior participação e liquidez. Apesar dos resultados seguirem ligados a eventos e ao tempo de entrada, a combinação entre amadurecimento do mercado e catalisadores do mundo real torna os fan tokens um segmento cada vez mais relevante com o desenvolvimento do SportFi até 2026.
Referências
Um Fan Token Index para a Copa do Mundo de 2026 e além. BeInCrypto (julho de 2025) | Link
Sponsored SponsoredGanhos antecipatórios e perdas por eventos em fan tokens na blockchain: evidências da Copa do Mundo da FIFA. SSRN (março de 2024) | Link
Big Ideas 2026. A16Z (dezembro de 2025) | Link
Chiliz e Assetera unem forças para acelerar ativos do mundo real tokenizados em esportes e entretenimento. Chiliz Blog (novembro de 2025) | Link
Decentral lança primeiro pool de media rights de futebol em RWA na Chiliz Chain, marcando novo capítulo para o SportFi. Chiliz Blog (dezembro de 2025) | Link
Análise do Fan Token Index após o primeiro mês. BeInCrypto (setembro de 2025) | Link
FanTokens | Link
De Wall Street à Copa do Mundo: como o futebol se tornou a principal porta de entrada para a cripto. CoinDesk (dezembro de 2025) | Link
Como os fan tokens impulsionam comunidades globais de fãs. Fan Tokens (outubro de 2025) | Link
Precificando a crença: AFC e a emergência de dinâmicas de previsão em fan tokens. BeInCrypto (novembro de 2025) | Link
SportFi: análise técnica e fundamentalista do ecossistema Chiliz e Fan Token. BeInCrypto (maio de 2025) | Link
Estado do mercado cripto em 2025: o ano em que a cripto se tornou popular. a16zcrypto (outubro de 2025) | Link
A Chiliz Chain em 2025: dos Fan Tokens ao estádio soberano. Chiliz Blog (dezembro de 2025) | Link
O grupo Chiliz celebra dois avanços regulatórios: licença europeia para a Socios Europe Services e white paper do CHZ em conformidade com a MiCA. Chiliz Blog (dezembro de 2025) | Link
A evolução dos mercados de criptomoedas: um estudo empírico de 2017 a 2025. Northwestern Edu (julho de 2025) | Link
Por que os Fan Tokens são mais do que apenas mais um ativo cripto. Fan Tokens (julho de 2025) | Link