Os ativos reais tokenizados (RWA) desafiam a tendência de queda do mercado cripto. O valor total dos RWAs distribuídos em blockchain quase quadruplicou no último ano.
Apesar do crescimento da concorrência da Solana (SOL), o Ethereum (ETH) segue líder no segmento, concentrando mais da metade da fatia de mercado.
Crescimento de RWA acelera apesar da queda do mercado
De acordo com dados da RWA.xyz, o valor dos RWAs distribuídos atingiu máxima histórica de US$ 26,7 bilhões em março. No momento desta reportagem, o índice estava ligeiramente menor, em US$ 26,6 bilhões, um avanço de 309% frente aos US$ 6,5 bilhões registrados um ano antes.
Esse movimento expressivo ocorre mesmo diante do cenário de instabilidade. Recentemente, o mercado de cripto foi marcado por sentimento de medo extremo.
A trajetória de alta dos RWAs tokenizados indica que investidores dedicam mais espaço a esses investimentos.
O número de investidores também aumentou de forma relevante em 2026 nas redes Ethereum, Solana, Arbitrum, BNB Chain, entre outras. Inclusive, um levantamento do BeInCrypto mostrou que a Solana ultrapassou o Ethereum pela primeira vez em quantidade de investidores de RWA.
Dados recentes indicam que a Solana concentra cerca de 157.682 investidores, à frente do Ethereum. Apesar dessa mudança nas dinâmicas de usuários, o Ethereum mantém hegemonia no ecossistema de RWA.
A rede representa atualmente mais de 57% do mercado de RWAs distribuídos e dá suporte a cerca de 675 projetos de tokenização, reforçando sua posição como base para iniciativas institucionais do setor.
O interesse institucional no Ethereum se fortaleceu a partir de projetos de destaque. Em dezembro, por exemplo, o JPMorgan lançou seu primeiro fundo de renda fixa tokenizada na rede.
Por que Wall Street ainda escolhe o Ethereum para tokenização?
Por que instituições optam pelo Ethereum? Análises do Conselho de Especialistas da BeInCrypto, composta por executivos do Standard Chartered e da Bitwise, apontam que a escolha recai menos sobre ideologia e mais sobre gestão de risco, familiaridade e proteção institucional.
Geoff Kendrick, chefe global de pesquisa de ativos digitais do Standard Chartered, afirmou que nos próximos anos a maior parte da movimentação de blockchain em finanças tradicionais deve ocorrer via Ethereum.
“Acredito que o Ethereum deve liderar nos próximos anos devido ao interesse das finanças tradicionais. À medida que bancos e instituições desenvolvem iniciativas no universo blockchain, isso deve se concentrar quase totalmente no Ethereum nesse período”, disse Geoff Kendrick, do Standard Chartered.
Segundo ele, a adoção de redes alternativas pode ocorrer posteriormente, em especial em blockchains que apresentam custos mais baixos e maior agilidade, como a Solana.
“Existe um conceito no mercado financeiro tradicional: caso uma decisão sensata resulte em problema, provavelmente o profissional mantém o emprego; mas se a escolha for arriscada e houver erro, a perda da vaga é quase certa”, explicou Geoff Kendrick ao BeInCrypto. “Por isso, vejo nos próximos anos o Ethereum recebendo esse fluxo das finanças tradicionais, inclusive com melhor desempenho no preço do token.”
Embora o domínio do Ethereum entre blockchains públicas esteja consolidado, surge a discussão se blockchains privadas e permissionadas podem desafiar esse protagonismo inicial.
As redes privadas ou permissionadas oferecem maior controle, privacidade, conformidade regulatória, transações mais rápidas e custos previsíveis, o que torna o modelo atraente para grandes instituições.
Essas vantagens, no entanto, vêm acompanhadas da diminuição da descentralização e abertura, características das blockchains públicas. Matt Hougan, CIO da Bitwise, acredita que as empresas devem testar essas infraestruturas mais controladas.
Segundo Hougan, diversas companhias “começam a testar o ambiente.” Ele considera possível que parte dessas redes permissionadas conquiste espaço significativo à medida que a adoção institucional evoluir.
O próximo período será decisivo para avaliar se o Ethereum conseguirá sustentar sua participação de 57% à medida que a concorrência se intensifica. Por ora, a preferência de Wall Street permanece evidente.