O Brasil virou alvo das maiores redes de crime com cripto, aponta Chainalysis

  • Brasil recebeu US$ 318 bi em cripto onchain em um ano, diz Chainalysis.
  • Lavagem de cartéis, China e Rússia domina fluxos ilícitos locais.
  • Cinco endereços concentram até 90% do volume ilícito por trimestre.
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O Brasil é o maior mercado de cripto da América Latina. Esse tamanho atrai investidores, fintechs e também o crime organizado. Um novo relatório da Chainalysis, empresa de análise de blockchain, mostra que as principais redes globais de lavagem de dinheiro já operam dentro de corretoras brasileiras.

Entre julho de 2024 e junho de 2025, o país recebeu cerca de US$ 318 bilhões em valor onchain. O montante equivale a quase um terço de tudo o que circulou em cripto na América Latina no período. Onchain significa registrado diretamente na blockchain, a rede pública que valida cada transação.

Segundo a Chainalysis, três grupos respondem por mais da metade dos fluxos ilícitos identificados em corretoras brasileiras selecionadas em 2025. São as redes de lavagem operadas em língua chinesa, agentes ligados a sanções russas e o tráfico de drogas.

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A convergência chega num momento decisivo. Um novo regime de autorização para empresas de cripto entrou em vigor na segunda-feira (2) de fevereiro de 2026. As regras de reporte valem desde segunda-feira (4) de maio. O prazo final de licenciamento é quinta-feira (29) de outubro.

Crime com cripto no Brasil reflete uma onda global

O valor recebido por endereços ilícitos no mundo chegou a US$ 154 bilhões em 2025, segundo a Chainalysis. Em 2024 foram US$ 59 bilhões. Em 2020, apenas US$ 11 bilhões.

A composição também mudou. As stablecoins passaram a representar a maior parte do valor ilícito. Stablecoin é a cripto atrelada a um ativo estável, em geral o dólar, usada para liquidação rápida e com pouca variação de preço.

Três categorias dominam a lavagem global e todas aparecem no Brasil. As redes de lavagem operadas em língua chinesa, conhecidas como CMLNs, já respondem por cerca de 20% do total lavado onchain. Elas funcionam como um serviço terceirizado de lavagem, contratado por traficantes, fraudadores e até agentes estatais.

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A evasão de sanções também disparou. Operações conduzidas por Estados somaram cerca de US$ 104 bilhões em 2025, alta de 694% sobre o ano anterior. O tráfico de drogas segue como um componente estável e persistente.

Cartéis, China e Rússia no mapa do crime com cripto no Brasil

A lavagem ligada a cartéis surgiu como a maior categoria identificada nos fluxos ilícitos para corretoras brasileiras. O dado reflete a posição do país nas rotas de cocaína da América do Sul. Grupos como o PCC e o Comando Vermelho já foram documentados usando cripto em suas finanças. Os dois são classificados como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos Estados Unidos.

Os fluxos ligados às CMLNs apareceram de forma consistente no período. Eles conectam corretoras locais à mesma infraestrutura global que atende o crime em vários países.

Os fluxos vinculados à Rússia ganharam peso em 2024 e 2025. Entre eles está o serviço de swap A7A5 e outras entidades sob sanção internacional. Swap é a troca direta entre criptoativos. Também surgiram serviços de garantia, ou escrow, associados a fraudes e ao crime organizado.

Poucos endereços concentram o crime com cripto no Brasil

A análise revela um padrão útil para a fiscalização. O número de endereços de depósito expostos a fluxos ilícitos variou de cerca de 550 a 950 por trimestre entre 2023 e o início de 2026.

A concentração, porém, é alta. Os cinco endereços mais expostos por trimestre responderam por algo entre 75% e 90% do volume ilícito total. Em março de 2026, cerca de 80% desse volume foi para apenas cinco endereços. Para a Chainalysis, isso abre espaço para uma intervenção direcionada nos alvos de maior risco.

Nova regulação testa o combate ao crime com cripto no Brasil

As tendências surgem em meio a uma mudança regulatória acelerada. Em novembro de 2025, o Banco Central publicou as Resoluções 519, 520 e 521, que regulamentam a Lei de Ativos Virtuais de 2022.

O regime cria um caminho de licenciamento para as prestadoras de serviços de ativos virtuais, as PSAVs. Inclui corretoras, custodiantes e intermediários, além de empresas estrangeiras que atendem brasileiros. Também traz obrigações de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, com a Regra de Viagem do GAFI. Essa regra exige que as empresas compartilhem dados de remetente e destinatário em transferências. A Resolução 521 trata as remessas internacionais de stablecoins como operação de câmbio.

As obrigações de reporte começaram em maio. As empresas já em operação têm até outubro para obter a licença. Em paralelo, uma consulta pública da CVM sobre quando criptoativos viram valores mobiliários segue aberta até junho de 2026. A fiscalização avançou no mesmo ritmo. Em março de 2026, a Lei 15.358 ampliou os poderes para bloquear, apreender e dar nova destinação a ativos digitais ligados ao crime organizado.

Para a Chainalysis, o prazo de conformidade vira uma chance de mostrar, com dados onchain, que a intervenção direcionada pode agir mais rápido que as redes criminosas já instaladas no mercado.


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