O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) decidiu ontem (18) reduzir a taxa básica de juros, a Selic, para 14,75% ao ano. A decisão marca o início de um ciclo de ajuste gradual da política monetária, após período prolongado de manutenção dos juros em patamar contracionista, ou seja, em nível elevado o suficiente para conter a inflação e desacelerar a economia.
O colegiado avalia que a decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para a meta ao longo do horizonte relevante de política monetária.
Cenário externo
O ambiente internacional ficou mais incerto. O acirramento dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio aumentou a volatilidade, termo que indica oscilações bruscas nos preços de ativos financeiros e commodities, como petróleo e grãos.
O Copom avalia os impactos desses conflitos de forma prospectiva, especialmente sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil.
O cenário exige cautela por parte dos países emergentes, grupo do qual o Brasil faz parte.
Cenário doméstico
No Brasil, os indicadores econômicos seguem mostrando moderação no crescimento da atividade. O mercado de trabalho, no entanto, ainda apresenta sinais de resiliência.
Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes, que excluem itens mais voláteis para capturar a tendência dos preços, apresentaram algum recuo. Ainda assim, permaneceram acima da meta para a inflação.
Os indicadores do final de 2025 mostraram desaceleração da atividade econômica, em cenário marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas e pressões no mercado de trabalho.
Projeções de inflação
As expectativas de inflação para 2026 e 2027, apuradas pela pesquisa Focus, que ouve semanalmente analistas do mercado financeiro, permanecem acima da meta. Os valores são de 4,1% e 3,8%, respectivamente.
A projeção do próprio Copom para o terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, é de 3,3% no cenário de referência.
| Índice de preços | 2026 | 3º tri 2027 |
|---|---|---|
| IPCA (inflação oficial) | 3,9% | 3,3% |
| IPCA livres (bens e serviços sem controle de preço) | 3,7% | 3,3% |
| IPCA administrados (energia, combustíveis, tarifas) | 4,3% | 3,2% |
No cenário de referência, a trajetória para os juros é extraída da pesquisa Focus. A taxa de câmbio parte de R$ 5,20 por dólar, evoluindo segundo a paridade do poder de compra (PPC), metodologia que estima a variação do câmbio com base na diferença de inflação entre os países. O preço do petróleo segue a curva futura pelos próximos seis meses e passa a crescer 2% ao ano depois. Adota-se também a hipótese de bandeira tarifária amarela em dezembro de 2026 e de 2027.
Riscos
Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, já estavam acima do usual e se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio.
Entre os riscos de alta, o Copom destaca a possibilidade de desancoragem prolongada das expectativas de inflação, maior resistência na inflação de serviços e impacto inflacionário de políticas econômicas interna e externa, inclusive por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais desvalorizada.
Entre os riscos de baixa, o comitê cita uma desaceleração da atividade doméstica mais acentuada do que o projetado, uma desaceleração global mais pronunciada provocada pelo choque de comércio e a possibilidade de queda nos preços das commodities, com efeito desinflacionário, ou seja, de redução da inflação.
Próximos passos
O Copom reafirma que conduzirá a política monetária com serenidade e cautela. Os próximos passos do ciclo de ajuste da Selic dependerão de novas informações sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio e seus efeitos sobre os preços.
O Comitê acompanha como os desenvolvimentos da política fiscal, as decisões sobre gastos e receitas do governo, impactam a política monetária e os ativos financeiros.
Votação
Votaram pela decisão os seguintes membros do Copom: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira.