A Circle Internet Group (NYSE: CRCL) registrou alta expressiva, saindo de sua mínima de US$ 49,90 nos últimos 12 meses em 5 de fevereiro para cerca de US$ 129 em meados de março, um avanço próximo de 160% enquanto o mercado cripto mais amplo seguia em queda.
O movimento de alta foi provocado por cinco fatores simultâneos que levaram Wall Street a deixar de tratar a CRCL apenas como um reflexo do segmento cripto para considerá-la um player de infraestrutura de pagamentos.
Por que a queda mais ampla do mercado cripto é relevante para esta reportagem?
O Bitcoin (BTC) atingiu o pico de quase US$ 126 mil no início de outubro de 2025 e desde então caiu cerca de 44%, recuando de US$ 126 mil para os US$ 69.898 no momento desta reportagem.
Liquidações massivas alavancadas registradas em 10 de outubro eliminaram mais de US$ 19 bilhões em um único dia, o que gerou saídas contínuas de ETFs à vista de Bitcoin por vários meses.
Apesar disso, a oferta de USD Coin (USDC) caminhou em sentido oposto. O volume em circulação partiu de US$ 75,3 bilhões no final de 2025 para aproximadamente US$ 81 bilhões em meados de março de 2026, segundo dados on-chain. Essa diferença chamou a atenção dos analistas.
A Clear Street elevou a avaliação da CRCL de “Manter” para “Comprar” em 16 de março, estabelecendo meta de US$ 136, acima do anterior de US$ 92.
Segundo a empresa, cinco fatores impulsionam o crescimento do USDC mesmo frente à retração do mercado, incluindo:
- Tokenização
- Mercados de previsão
- Convergência entre IA e agentes autônomos
- Possível aprovação da CLARITY Act
Cinco catalisadores por trás da reavaliação
A decisão do Federal Reserve de manter a taxa de juros elevada por mais tempo sustentou a rentabilidade do portfólio de reservas da CRCL. A Circle informou receita de reservas de US$ 733 milhões no quarto trimestre, uma alta de 69% em relação ao ano anterior.
A empresa mantém reservas do USDC principalmente em títulos do Tesouro dos EUA de curto prazo e em caixa, gerando margens elevadas sobre aproximadamente US$ 81 bilhões em ativos.
Em 25 de fevereiro, a Circle divulgou resultados acima do esperado no quarto trimestre de 2025 e levou a ação a subir 35% em uma única sessão. O lucro ajustado por ação atingiu US$ 0,43, superando com folga o intervalo consensual de US$ 0,15 a US$ 0,35, conforme as fontes consultadas.
A receita acrescida do ganho das reservas chegou a US$ 770 milhões, alta de 77% em doze meses. O EBITDA ajustado saltou 412%, alcançando US$ 167 milhões.
Enquanto isso, o Mizuho divulgou um estudo em 13 de março mostrando que o USDC superou o USDT da Tether, pela primeira vez desde 2019, em volume ajustado de transações.
O USDC processou cerca de US$ 2,2 trilhões no acumulado do ano, contra US$ 1,3 trilhão para o USDT. Assim, o USDC conquistou uma fatia de 64% no volume ajustado entre as stablecoins, superando os dois principais tokens.
O incentivo mais voltado ao futuro envolve a inteligência artificial. O diretor global de marketing da Circle, Peter Schroeder, revelou no X que agentes de IA realizaram 140 milhões de pagamentos em nove meses, movimentando US$ 43 milhões.
Desses pagamentos, 98,6% foram liquidados em USDC, com valor médio de transação de apenas US$ 0,31. Mais de 400 mil agentes de IA detêm atualmente poder de compra.
A Stripe lançou o sistema Machine Payments para que agentes de IA possam pagar diretamente em USDC. A Coinbase incubou o protocolo aberto de pagamentos x402 na Base, e o padrão aberto de pagamentos para agentes do Google inclui o x402 como camada de liquidação. Cloudflare, AWS e a própria Circle também atuam nessas soluções.
Analistas passam do ceticismo para revisões positivas
Antes da disparada, Ed Engel, analista da Compass Point, mantinha a projeção mais negativa em Wall Street, classificando a CRCL como “Vender” e atribuindo-lhe o menor preço-alvo do mercado. Em 29 de janeiro, Engel melhorou a recomendação para “Neutro”, apontando que diversas preocupações anteriores já estavam refletidas no preço.
Mesmo assim, Engel manteve cautela ao observar que mais de 75% da oferta de USDC está em aplicações de DeFi ou em exchanges de cripto, ligando a receita da Circle aos movimentos especulativos do mercado.
Ele também alertou para a concorrência vinda de moedas digitais emitidas por bancos como JPMorgan, State Street e BNY Mellon.
No cenário otimista, a Bernstein reiterou uma classificação Outperform, com preço-alvo de US$ 190. A William Blair também manteve sua recomendação Outperform. A Mizuho elevou sua meta para US$ 120, após uma estimativa anterior de US$ 100, mantendo postura neutra.
O consenso entre 17 analistas, em meados de março, era de compra, com preço-alvo médio em torno de US$ 124.
“Bancos, empresas de pagamentos e companhias de tecnologia em todo o mundo estão se antecipando e buscando incorporar stablecoins em suas estratégias de produto”, afirmou Jeremy Allaire durante a apresentação de resultados do quarto trimestre de 2025.
Justin Sun, da TRON, apresentou uma visão oposta no X, alegando que a TRON gerou lucro de US$ 3,3 bilhões no ano passado, enquanto a Circle operou com prejuízo GAAP, mesmo assim mantendo valuation de mercado 70 vezes maior.
A dúvida agora é se a dominância do USDC no volume transacionado e a adoção de pagamentos via IA podem sustentar um valor de mercado que já reflete expectativa expressiva de crescimento.
Se o CLARITY Act for aprovado e os volumes de micropagamentos via IA se expandirem com a integração do Stripe e do Google, essa reavaliação pode ter espaço para avançar.
Se cortes na taxa do Fed acontecerem antes do previsto, a rentabilidade das reservas que impulsionam a margem da Circle pode ser impactada.