Em entrevista ao BeInCrypto no evento MERGE São Paulo, André Portilho, sócio e responsável pela área de ativos digitais do BTG Pactual, avaliou o momento atual do mercado cripto no Brasil e no mundo, destacou os planos do banco para tokenização de produtos financeiros e analisou o cenário macroeconômico de 2026, marcado por incertezas geopolíticas, avanço da inteligência artificial e questionamentos sobre o papel do dólar como reserva global.
Pioneiros desde 2017
O BTG Pactual iniciou sua jornada no mercado cripto em 2017, inicialmente com foco em operações de trading. Desde o começo, ficou evidente para o banco que a tecnologia blockchain seria a nova infraestrutura do sistema financeiro.
“Desde o início estava claro para nós que essa tecnologia eventualmente se tornará os novos trilhos da indústria financeira. Isso trouxe nossa atenção e foi quando começamos a desenvolver produtos para levar isso aos clientes.”
Portilho brinca que, no universo cripto, o tempo passa em “anos de cachorro”, referência à velocidade acelerada com que o setor evolui. Ao ser chamado de veterano, ele concordou sem hesitar: “Em anos de cripto, com certeza.”
“Todo banco vai se tornar um banco cripto”
Questionado sobre sua famosa declaração de que todos os bancos serão bancos cripto em 10 a 20 anos, Portilho manteve a posição, mas fez uma ressalva sobre a nomenclatura.
“Não gosto muito do nome banco cripto. Sempre disse que não existe uma divisão entre finanças tradicionais e DeFi. Tudo vai convergir.”
Para ele, a blockchain permitirá que instituições operem com liquidação integrada, global e 24 horas por dia, 7 dias por semana. O executivo avalia que o setor vive hoje um ponto de inflexão, sustentado por três pilares que estão amadurecendo simultaneamente: tecnologia, educação institucional e regulação.
“Quando temos todas essas peças se combinando e convergindo como estamos vendo agora, acho que estamos em uma espécie de ponto de inflexão. As coisas vão de fato acelerar. Ainda estamos no primeiro inning. Há muito a desenvolver, muitos desafios para adaptar os sistemas legados.”
Tokenização: do imóvel ao mercado de capitais
Em 2019, o BTG Pactual emitiu o primeiro security token por um banco no mundo, um ativo de real estate tokenizado. Portilho descreve o projeto como pequeno em escala, mas fundamental para validar a tecnologia com clientes e recursos reais.
Agora, o banco prepara novos lançamentos para 2025.
“Temos uma série de coisas no forno, como dizemos no Brasil. Este ano vamos trazer ao mercado.”
A grande promessa da tokenização, segundo ele, é a criação de produtos completamente novos, não apenas a digitalização dos já existentes. Um exemplo citado é a possibilidade de investidores internacionais acessarem o mercado de renda fixa brasileiro, e vice-versa, por meio de instrumentos tokenizados.
Brasil lidera adoção bancária em cripto
Para Portilho, o Brasil reúne uma combinação rara: mercado de dimensões continentais, população tecnologicamente antenada e um sistema financeiro altamente sofisticado e competitivo, algo que, na sua avaliação, passa despercebido.
No varejo, a adoção de cripto já é relevante. No lado institucional, ainda há espaço para crescer, em parte pela concentração em produtos de renda fixa, favorecida pelos juros elevados do país.
“Quando isso normalizar, teremos mais atenção e adoção em cripto como classe de ativo.”
No segmento bancário, porém, o Brasil já se destaca globalmente.
“Praticamente todos os bancos aqui já oferecem cripto aos clientes ou estão em processo de oferecer. Não vejo isso quando olho para bancos nos EUA ou na Ásia. Aqui no Brasil é bem mais avançado.”
Ele também citou iniciativas regulatórias relevantes, como o projeto Drex, do Banco Central, e um novo esforço semelhante da Anbima, associação que reúne as principais instituições do mercado de capitais brasileiro.
Um 2026 cheio de complexidade e oportunidades
Ao analisar o cenário global, Portilho reconhece um momento de alta incerteza: tensões geopolíticas, disrupção provocada pela inteligência artificial e questionamentos sobre o dólar como moeda de reserva, com países buscando ativos alternativos como o ouro.
“Estamos definitivamente em um momento diferente e mais complexo. É muito difícil entender como essas coisas vão convergir. Mas vamos viver anos muito interessantes pela frente.”
Para o executivo, o cenário desafiador traz também oportunidades para empresas e investidores que souberem se posicionar bem.
“Cada empresa lá fora deveria estar olhando para isso. É difícil, mas é uma geração. Se bem administrada, pode ser muito boa.”