O mercado de cripto está tomado por medo extremo. Preocupações geopolíticas e macroeconômicas impulsionaram o sentimento dos investidores para um forte movimento de aversão ao risco.
Nesse cenário, uma questão essencial se destaca: onde o capital institucional está se posicionando? Na mais recente discussão do BeInCrypto Expert Council, líderes da Standard Chartered e da Bitwise revelaram que o foco institucional está se estreitando, com o chamado smart money concentrado em alguns poucos ativos de cripto.
Mercado cripto permanece em medo extremo enquanto guerra continua
O Crypto Fear & Greed Index, que avalia o sentimento emocional geral do mercado de cripto, indica um cenário de Medo Extremo neste momento de reportagem.
Embora o nível 18 de hoje represente uma leve melhora em relação à leitura mais baixa de ontem, ainda reflete um ambiente dominado pelo medo.
O sentimento não surpreende, considerando o contexto atual. A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã já chega ao 13º dia, e o risco geopolítico segue aumentando.
Uma sugestão anterior do presidente Trump de que o conflito poderia terminar em breve chegou a impulsionar brevemente bolsas e cripto, enquanto pressionou o preço do petróleo. Esse otimismo já se dissipou.
O BeInCrypto informou que o Irã apresentou condições para um cessar-fogo que divergem completamente da posição de Washington. Mais importante, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) declarou que não permitirá “um litro de petróleo” passando pelo Estreito de Ormuz.
O bloqueio na principal rota marítima do Golfo impacta negativamente o mercado global de energia, o preço do petróleo volta a subir e as cotações de cripto também caem em conjunto.
Os efeitos indiretos se intensificam. O aumento dos custos energéticos eleva o temor de recessão, enquanto sinais de estresse em trabalho e crédito ampliam a incerteza.
No mercado de ações e de crédito, operações de hedge avançam de forma expressiva, sinalizando que investidores institucionais estão se preparando para mais volatilidade.
“As posições vendidas de hedge funds em produtos macro dos EUA, incluindo futuros de índices e ETFs, chegaram a 11% da exposição total do país, o patamar mais alto desde o bear market de 2022. Esse percentual aumentou 4 pontos desde setembro de 2024. Nos últimos cinco anos, a exposição vendida só ficou acima desse nível em 7% do tempo”, relatou The Kobeissi Letter em sua publicação.
O argumento para o Bitcoin
No contexto atual, investidores tendem a agir com mais cautela. O debate do Expert Council indica que instituições estão se posicionando em torno do Bitcoin, Ethereum e um seleto grupo de protocolos estabelecidos de finanças descentralizadas (DeFi), em vez de adotarem a visão mais ampla sobre o cenário das altcoins.
Michael Walsh, presidente da Zodia Markets (subsidiária da Standard Chartered) e ligada à Kraken, afirmou que o mercado caminha para “uma consolidação em torno dos principais coins, dos principais ativos”.
Em sua análise, isso ocorre porque a adoção institucional exige compromisso. Os dados confirmam essa tendência. O envolvimento institucional no Bitcoin segue expressivo.
Em 2025, empresas, governos, fundos e ETFs adicionaram aproximadamente 829 mil BTC.
Ao mesmo tempo, consultores de investimentos registrados (RIAs) destinam cerca de US$ 1,5 bilhão por trimestre para Bitcoin ETFs nos últimos dois anos, sem nenhum trimestre registrado de saldo vendedor no período.
Apesar da queda na demanda em meio ao bear market, o capital institucional não abandonou totalmente o ecossistema de cripto. Os ETFs de Bitcoin já somaram mais de US$ 1 bilhão em entradas somente em março de 2026, encerrando uma sequência de quatro meses consecutivos de baixa.
Eric Balchunas, analista sênior de ETF da Bloomberg, destacou que hoje os ETFs possuem juntos 1,28 milhão de Bitcoin, o que os torna, como grupo, o maior investidor global do ativo.
Além disso, dados do BitcoinTreasuries mostram que 194 empresas listadas atualmente detêm 1,156 milhão de Bitcoin.
Por que o Ethereum atrai capital institucional?
O Ethereum também atrai forte interesse institucional. Segundo dados do CoinGecko, 29 empresas de capital aberto já possuem o ativo em seus balanços. Em 31 de dezembro, ETFs spot de ETH contavam com 938 investidores institucionais protocolando formulários 13F.
Vale mencionar que Bitcoin e Ethereum despertam o interesse das instituições por motivações distintas. O Bitcoin é amplamente reconhecido como reserva de valor.
Por sua vez, o diferencial do Ethereum está na liderança em DeFi, no rendimento proporcionado por staking e na posição de principal plataforma para a tokenização de ativos do mundo real (RWA). O ativo detém mais de 57% do market share de RWA distribuídos.
Geoff Kendrick, chefe global de pesquisa de ativos digitais do Standard Chartered, avaliou que nos próximos anos grande parte das operações de blockchain das finanças tradicionais tende a se concentrar no Ethereum.
…Acredito que o Ethereum deve prevalecer neste momento em razão do envolvimento crescente das finanças tradicionais… , afirmou.
Dessa forma, fica evidente que Bitcoin e Ethereum seguem como os principais criptoativos de grande capitalização beneficiados pela alocação institucional, oferecendo as maiores liquidez, infraestrutura consolidada e os acessos mais conhecidos para o capital.
Capital institucional entra em layer de DeFi com Aave, Morpho, Uniswap
Apesar disso, Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise Asset Management, citou ainda outros protocolos.
O interesse institucional é comprovado por iniciativas recentes. No mês passado, a Anchorage Digital incluiu suporte à Morpho, permitindo que clientes institucionais tenham acesso direto à suíte de cofres Morpho pela plataforma.
No final de fevereiro, Resolv e Centrifuge destinaram US$ 100 milhões em uma estratégia JAAA via Aave Horizon. O projeto consolidou-se como o maior mercado de empréstimos lastreados em RWA no Ethereum, sinalizando a confiança crescente dos institucionais.
Paralelamente, a gestora BlackRock também levou seu fundo de Treasuries tokenizado, o BUIDL, para a UniswapX em parceria com a Securitize. A empresa ainda informou ter adquirido tokens UNI.
De modo geral, esses movimentos desenham um cenário claro: o capital institucional vem migrando não só para Bitcoin e Ethereum, mas também para a infraestrutura DeFi. Contudo, este ciclo demonstra uma consolidação institucional seletiva, não apenas uma onda especulativa envolvendo todos os tokens de criptoativos.