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Ainda há desconfiança com o mercado cripto no Brasil, segundo esse empresário

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Atualizado por Júlia V. Kurtz

O mercado de criptomoedas expandiu para o mundo inteiro desde a criação do Bitcoin (BTC). A tecnologia conseguiu chamar a atenção de pessoas além do nicho dos interessados em tecnologia e, desde então, nada parece conseguir pará-la.

Essa expansão chegou ao Brasil, um país em que empresas cripto também tentam se estabelecer e fazer negócios.

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Maurício Zanetti é CEO da KRYP.TOOLS, empreendedor, mentor, investidor anjo e consultor de empresas. Participou de mais de 50 conferências e exposições de tecnologia em todo o mundo. Visitou mais de 40 países. Palestrante convidado em vários congressos, workshops e eventos globais, especialmente nos EUA, Dubai, Reino Unido, Alemanha e Suíça.

Nessa conversa com o BeInCrypto, Zanetti explica como é atuar no mercado cripto e a relação de empresas com os órgãos regulatórios.

  • Como você começou a carreira e o que te atraiu para o mercado cripto?

Eu trabalho com tecnologia e inovação a cerca de 30 anos e já tive uma série de empresas. Eu trabalhei muito tempo com tecnologia, internet. E nós tínhamos uma incubadora para criar startups e investir em outras empresas.

Por coincidência, em 2011 ou 2012, nós tínhamos algumas iniciativas voltadas a meios de pagamento. E entre elas havia uma startup na qual minha esposa e eu fizemos um investimento anjo. Essa startup trabalhava com moedas digitais e, no futuro, foi a primeira a integrar criptomoedas, no caso o Bitcoin.

Ou seja, nós estamos nesse mercado a muitos anos e trabalhando com startups desde cedo. Em 2016, eu saí desse grupo e montei outra empresa incubadora, aceleradora e venture builder. Basicamente, nós selecionamos startups e tecnologias relevantes no Brasil que valham a pena serem internacionalizadas.

Nós levamos muitas startups a países como China e Estados Unidos. E nós fazemos isso porque, quando identificamos um nicho importante onde não há uma startup, nós criamos uma.

  • E como você passou a trabalhar com criptomoedas e blockchain?

Este mercado é interessante porque, primeiramente, ele é regulado pelos próprios usuários. Portanto, ocorre uma seleção natural. Se você faz um bom trabalho, o negócio vai ser recompensado. Por outro lado, se fizer algo ruim, o mundo cai em cima de você.

Além disso, é literalmente um mercado que funciona 24/7, ao contrário do tradicional que opera das 9h às 17h. O fato de a indústria cripto estar sempre operando cria uma série de oportunidades, não só de investimentos mas de conhecimentos também. Isso ocorre porque o mercado cripto, além de estar ligado à área financeira, é ainda mais ligado à área de tecnologia.

As criptomoedas mais conhecidas, como o Bitcoin (BTC), conseguem fazer muita disrupção no mercado. Por outro lado, nós temos muitos outros exemplos. Nós temos uma versão do Netflix, por exemplo, que é  aberto e baseado em web3. Isso é fantástico!

São pessoas que criaram ecossistemas baseados em criptomoedas e geram uma grande disrupção no segmento. E é por isso que eu gosto dessa parte tecnológica.

  • Como é trabalhar com o público de criptomoedas brasileiro e como essa relação evoluiu com o passar dos anos?

O público do varejo aceita melhor a introdução de criptomoedas do que o institucional. Estes últimos ainda têm receio de trabalhar com o mercado. Eles têm alguns fundos de clientes e precisam garantir uma remuneração, então eles são focados e adversos a riscos.

Muitas pessoas veem o mercado cripto como uma forma de assalto eletrônico. E há muitos casos disso, muitos golpes. Chegou no ponto que nós tivemos medo de colocar “cripto” no nome da empresa por causa dessa conotação.

Depois de trabalhar anos no mercado, o público conheceu o nosso trabalho e agora todos falam bem da empresa. Ainda mais quando o mercado está em alta. Há alguns anos, quando o Bitcoin (BTC) estava em alta, todo mundo estava investindo.

Só que, nesses casos, ninguém olha para o que tem relevância no mercado, o que pode fazer os preços se movimentarem. O que uma notícia na China, por exemplo, tem a ver com a cotação de uma criptomoeda? Nós sabemos que isso é importante, mas o público em geral é pego de surpresa.

Nós montamos uma plataforma para ajudar este tipo de profissional, especialmente os que não conhecem a fundo o mundo cripto, que é diferente do mercado financeiro tradicional.

Claro que há coisas parecidas, há gráficos, análises semelhantes. Mas o mercado financeiro tradicional não tem tantas variáveis, nem a mesma volatilidade.

  • O público cripto do Brasil é muito amador?

Ainda há muito disso, pelo que nós percebemos. E não é só no Brasil, isso ocorre também em outros países de língua portuguesa, Angola, principalmente. Mas isso é mais complexo do que parece.

As pessoas acreditam em golpes porque do outro lado há um golpista criando cenários cada vez mais incríveis. E elas estão desesperadas. É um perfil de investidor muito comum. São pessoas que ficaram desempregadas, passaram por dificuldades na pandemia e estão apostando em cripto.

São pessoas que viram o potencial de ganho rápido, mas em vez disso colheram perdas rápidas.

Por outro lado, há quem tenha boas informações e curiosidade de estudar mais a fundo os ativos ou a tecnologia.

  • Como é a relação da empresa com órgãos reguladores?

A regulamentação é uma tendência natural. Especialmente depois de uma grande queda, que sempre resulta na criação de novos gatilhos. É assim no sistema financeiro tradicional.

E o que aconteceu agora, com a FTX, por exemplo, é semelhante ao que já aconteceu no setor tradicional. E é nítido que novas regulamentações virão e que as empresas sérias estão se esforçando para convencer clientes de que há um ambiente sério.

Por exemplo, muitas delas abriram seu balanço. Se você tem essa série de gatilhos no mercado, você consegue analisar se uma exchange é relevante ou não. No Brasil, a regulamentação quer sair em direção a isso. É uma forma de responsabilizar pessoas que fazem ou criam golpes ou serviços que prometem algo que não pode ser entregue depois.

Nós também temos casos de grandes empresas do mercado financeiro que não eram tradicionais, mas ficaram muito grandes. Elas pegavam dinheiro dos clientes dizendo que iriam investir em cripto e prometiam um percentual de remuneração enorme. Depois pagavam por dois ou três meses e desapareciam.

E isso é algo que facilita o nosso negócio, porque nós somos um software de automação de tarefas não-custodial, ou seja, nós não temos a posse do dinheiro do cliente. Como nós não fazemos nada diretamente, o processo regulatório é mais simples.

  • O processo de automação tem muito a ver com a inteligência artificial, que é um assunto que está vem alta hoje em dia. Como essa tecnologia pode auxiliar no mercado cripto?

Eu acredito que estamos chegando nesse estágio. Nós já temos casos de robôs físicos e humanoides – alguns inclusive com o ChatGPT – que estão operando pessoas. Em Dubai, por exemplo, há robôs cirurgiões fazendo cirurgia remota e tomando decisões que não dependem da pessoa. E, se o médico achar que o robô vai cometer um erro, ele trava a operação.

Ou seja, você tem um mix. A inteligência artificial é muito legal, mas sempre é necessário supervisão humana para não deixar isso escapar de alguns limites. Ela é criada por pessoas que vão a alimentar com machine learning. Se eu usar dados tendenciosos, o software vai ser tendencioso também. Tudo depende de quem treina.

Uma IA também é um programa, um software. Se você a programar errado, ela vai cometer erros.

E em relação a criptomoedas, nós usamos muito IA. O recurso acelera as operações de compra e venda, o que é muito útil em casos de emergências. Um exemplo é o que aconteceu na crise da FTX. De repente, a cotação de várias moedas desabou e é difícil operar tanta coisa ao mesmo tempo.

É assim que a inteligência artificial pode ser usada a nosso favor. Em algumas exchanges, podemos chegar a até mil operações por minuto.

  • A Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) está investindo pesado contra exchanges e empresas do mercado cripto, especialmente stablecoins. Como você enxerga esse movimento?

A regulamentação faz com que seja mais tranquilo as instituições também entrarem no jogo. E nós temos bancos grandes, como JP Morgan, entrando nesse segmento e oferecendo, de uma forma ou outra, ativos digitais para seus clientes.

E não são só criptomoedas, também há fundos imobiliários e uma série de coisas. Tudo o que nós falamos de gerenciamento de riscos são coisas que esses bancos já oferecem. Então se você tem mais regulamentação, tem mais oferta de ativos regulados.

Eu acho que isso é algo bom, mas é preciso dizer que, ao mesmo tempo, isto cria receio para grandes exchanges fora dos EUA entrarem no mercado do país.

A própria KRYP.TOOLZ abriu uma conta em um banco nos EUA e, um dia, recebemos uma notificação dizendo que ela fora encerrada. Isso apesar de nós sermos uma empresa de software. Mas eles não querem correr um risco sério de compliance por atender a um cliente que está relacionado com o mercado cripto.

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Júlia V. Kurtz
Editora-chefe do BeInCrypto Brasil. Jornalista de dados com formação pelo Knight Center for Journalism in the Americas da Universidade do Texas, possui 10 anos de experiência na cobertura de tecnologia pela Globo e, agora, está se aventurando pelo mundo cripto. Tem passagens na Gazeta do Povo e no Portal UOL.
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