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Bitcoin foi apropriado? Como instituições mudaram sua narrativa desde 2015

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Editado por
Lucas Espindola

03 março 2026 08:30 BRT
  • Mudança do Bitcoin de moeda descentralizada para ativo institucional reflete aumento do controle financeiro.
  • Aaron Day critica a evolução do Bitcoin e questiona se sua missão original foi desviada.
  • O colapso da Bitcoin Foundation levou o MIT Media Lab a desempenhar papel influente no desenvolvimento do Bitcoin.
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O Bitcoin, assim como o ecossistema cripto em geral, teve uma mudança de seu propósito original de ser uma alternativa descentralizada ao Estado e direcionado para a integração ao mesmo sistema financeiro que pretendia substituir.

Em entrevista, Aaron Day, cofundador da Daylight Freedom, fundação dedicada à soberania financeira e à liberdade individual, chegou a essa conclusão com base em suas experiências pessoais com o Bitcoin.

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Reavaliando a missão original do Bitcoin

Atualmente, o Bitcoin é reconhecido principalmente por suas características não soberanas e resistentes à censura. Há alguns anos, a comunidade cripto compara o ativo ao ouro, embora digital.

Day, conhecido por suas críticas ao setor cripto e por seu pensamento libertário, também já compartilhou dessa visão.

Foi por isso que começou a usar o Bitcoin em 2012. Entretanto, percebeu rapidamente que a narrativa da moeda estava em constante transformação, contrária à essência descentralizada inicialmente proposta.

Seus comentários persistentes nas redes sociais e críticas diretas a algumas das empresas mais influentes do setor acabaram levando parte do público a classificá-lo como adepto de teorias da conspiração.

No entanto, sua longa experiência como usuário de cripto, aliada às pesquisas desenvolvidas como pesquisador no Brownstone Institute, oferece uma perspectiva difícil de ser descartada, especialmente diante da crescente adoção do Bitcoin pelo mercado tradicional.

New Hampshire como campo de testes do Bitcoin

Quando Day, morador de New Hampshire, começou a usar o Bitcoin há 15 anos, diversos restaurantes e lojas aceitavam diretamente o ativo. O Bitcoin já funcionava como uma moeda digital apta para gastos diários.

De certo modo, o estado permitia o florescimento desse tipo de iniciativa.

Conhecida como região do “Live Free or Die” (“Viva Livre ou Morra”), New Hampshire também se tornou sede do Free State Project, movimento migratório político criado em 2001. A iniciativa atraiu cerca de 20 mil pessoas adeptas de ideais libertários para o estado, com o objetivo de concentrá-las numa região de baixa densidade demográfica.

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Day foi presidente desse projeto e, por seus princípios, interessou-se pelo potencial do Bitcoin.

“… Em 2012, as conferências discutiam como o Bitcoin seria utilizado como alternativa aos bancos centrais, como resolveria o problema da crise financeira de 2008 e se tornaria uma ferramenta sem intermediários. Foi assim que conheci o Bitcoin”, disse Day ao BeInCrypto em um episódio de podcast.

No entanto, apesar da adoção precoce em sua cidade, a narrativa mudou a partir de 2017. Segundo ele, o Bitcoin rapidamente se tornou inviável.

“De repente, as taxas dispararam. As transações que levavam segundos passaram a demorar dias. O ativo perdeu seu valor fundamental: permitir que qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, pudesse realizar transações voluntárias sem terceiros”, acrescentou.

Apesar de essa ter sido a insatisfação inicial de Day com a moeda, logo essa questão mostrou-se apenas uma pequena parte do problema.

Uma mudança de narrativa de dinheiro para reserva de valor

Quando Day começou a usar o Bitcoin, ele era encarado apenas como mais uma moeda para transações cotidianas, com as vantagens da descentralização. Não era visto de outra forma.

“Ninguém falava sobre o Bitcoin como sendo ‘ouro digital’. Não era algo para guardar e nunca gastar. Isso não consta no título do whitepaper, não condiz com o comportamento nem com a função do ativo”, explicou.

Essas mudanças coincidiram com o crescimento das soluções de layer 2 na cripto. Esses protocolos adicionais, construídos sobre o blockchain principal, buscam ampliar a velocidade e reduzir as taxas de transação. Protocolos como Segregated Witness (SegWit) e Lightning Network ganharam destaque na época.

Enquanto muitos desenvolvedores defendiam tais atualizações como ajustes técnicos necessários, Day interpretou de outra forma.

Para ele, o debate técnico sobre escalabilidade estava ligado a transformações estruturais mais profundas, sobretudo quanto ao financiamento do desenvolvimento do Bitcoin.

De apoio sem fins lucrativos para influência institucional

Em 2012, foi criada a Bitcoin Foundation, organização sem fins lucrativos, nos Estados Unidos para promover o uso do Bitcoin e proteger a integridade do projeto. A entidade apoiava ainda os primeiros desenvolvedores do núcleo do Bitcoin.

Três anos depois, porém, a fundação entrou em colapso diante de conflitos internos e dificuldades financeiras.

Em seguida, o MIT Media Lab, por meio da Digital Currency Initiative, dirigida por Joi Ito, ligado a Jeffrey Epstein, passou a financiar diversos desenvolvedores do núcleo do Bitcoin.

Equipe atual do MIT Media Lab Digital Currency Initiative. Fonte: MIT.
Equipe atual do MIT Media Lab Digital Currency Initiative. Fonte: MIT.

Para muitos no ecossistema, essa foi uma solução prática. O Bitcoin era um protocolo open-source sem apoio formal de uma empresa. Desenvolvedores precisavam de recursos financeiros para prosseguir com suas atividades.

Mas, para Day, o momento despertou questionamentos.

“… o MIT assumiu, e então alguns dos mesmos desenvolvedores que atuavam em temas como SegWit e Lightning Network basicamente prejudicaram o Bitcoin como dinheiro ponto a ponto e impulsionaram essa narrativa de que o ativo é ouro digital.”

À medida que os problemas de escalabilidade do BTC ficavam mais evidentes e o desenvolvimento da rede era cada vez mais direcionado por interesses institucionais com grandes recursos, o caráter descentralizado do projeto começou a se enfraquecer.

Atualmente, o Bitcoin passou a estar amplamente integrado em infraestruturas conectadas ao sistema bancário centralizado tradicional. Fundos negociados em bolsa (ETFs) ligados à moeda, custódia institucional e reservas nacionais estatais entraram para a pauta.

Day levantou a dúvida se esse caminho era inevitável ou resultado de fatores estruturais que desviaram o objetivo inicial do Bitcoin.

“… acredito que, no fim das contas, quanto mais o tempo passa, mais fica evidente que toda a cripto foi tomada por interesses externos”, concluiu.

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